Campinas inicia o ano em busca de respostas para uma situação que, para dizer o mínimo, soa estranhíssima. A abertura de uma sindicância para apurar afastamentos recorrentes de médicos na UPA Carlos Lourenço não é apenas um episódio administrativo. É um alerta grave sobre como a saúde pública pode ser corroída sem barulho — e sem reação proporcional.
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O caso surgiu em novembro. Só agora, em janeiro, uma comissão foi criada. A apuração, que precisa ser rigorosa, segue o conhecido ritmo da coisa pública: lento, protocolar e distante da urgência real do problema. Enquanto isso, o serviço segue pressionado e o paciente continua sendo a variável menos considerada da equação.
Os números impressionam. Cerca de 600 dias de licenças somadas em um único período analisado. Um médico concentrou 155 dias de afastamento. Dos 36 clínicos gerais concursados, 28 apresentaram atestados entre janeiro e outubro, e dez tiveram licenças superiores a 15 dias. Um profissional já deixou o cargo. Não é estatística comum. É padrão que exige explicação.
A portaria publicada no Diário Oficial institui a Comissão de Revisão Médica, encarregada de reexaminar atestados, ouvir profissionais e elaborar um relatório técnico. O processo corre em sigilo. A Prefeitura informou que o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo foi comunicado e atuará no que lhe compete. Não há prazo para conclusão. Eis outro problema.
O contexto torna tudo ainda mais sensível. 2025 começou com a polêmica da “fiscalização” do vereador Vini Oliveira sobre a presença de médicos nas unidades de saúde. O episódio virou Comissão Processante — e não vingou. Na época, a Câmara fez barulho, se posicionou, reagiu. Curiosamente, o ano terminou com um caso muito mais concreto, muito mais grave, e com muito menos celeuma.
Aqui surge uma pergunta incômoda: por que a Câmara silenciou? Em certos momentos, o Legislativo parece atuar mais como representante da categoria do que como fiscal do interesse público. Quando o problema deixa de ser discurso e passa a ser escala, atestado e plantão vazio, o ímpeto fiscalizador desaparece.
O caso da UPA Carlos Lourenço tem ares de escândalo. Não pela presunção de culpa — que não existe —, mas pelo conjunto de indícios que exige apuração célere, vigorosa e amplamente publicizada. Sigilo pode ser necessário para proteger direitos individuais, mas não pode servir de cortina para empurrar o assunto para depois.
No fim, é preciso recolocar o foco onde ele nunca deveria sair: no paciente. Para quem busca atendimento, pouco importa a disputa administrativa, o rito da sindicância, concursado, terceirizado ou a liturgia do sigilo. O que importa é simples: ter médico, ser atendido e sair do hospital o mais rápido possível.
Se houve abuso, que seja punido. Se houve falha sistêmica, que seja corrigida. Se houve adoecimento real, que seja respeitado — mas tudo isso precisa ser esclarecido com rapidez e transparência. A saúde pública não suporta investigações intermináveis nem silêncios convenientes. Cada dia de espera cobra um preço alto demais para ser tratado como detalhe administrativo.
Uso de áreas públicas tem reajuste
Divulgação/PMC
Os valores cobrados pelo uso de áreas públicas para fins comerciais em Campinas passaram por atualização de 4,49% e já estão valendo para todo o exercício de 2026. A medida foi oficializada por meio de publicação no Diário Oficial do Município e é aplicada pela Setec, responsável pela gestão dessas autorizações.
O percentual adotado acompanha a variação do INPC, indicador federal utilizado como referência para correções inflacionárias. A atualização ocorre uma vez por ano, sempre no início de janeiro, conforme previsto em decreto municipal.
A revisão alcança todas as permissões e concessões relacionadas ao uso do espaço público, independentemente do tipo de estrutura instalada. Entram nesse grupo bancas, quiosques, trailers, carrinhos, food trucks, barracas e equipamentos semelhantes, fixos ou removíveis.
Segundo a Setec, além da recomposição inflacionária, determinadas atividades tiveram ajustes adicionais, aplicados de forma pontual, levando em conta características específicas do local e do uso do espaço.
Os preços praticados seguem uma classificação por zonas, definida a partir do potencial econômico e da circulação de pessoas:
- áreas de maior fluxo e centralidade concentram os valores mais altos;
- regiões intermediárias integram o chamado Centro expandido;
- bairros mais distantes compõem as zonas periféricas, com valores diferenciados.
Espaços como o Parque Taquaral e o Bosque dos Jequitibás contam com regras próprias, devido às particularidades ambientais e de uso coletivo.
A Setec informa que, na definição dos valores, foram considerados gastos com operação, fiscalização e manutenção, além de estudos de mercado.
Os permissionários podem optar pelo pagamento em cota única, com 8% de desconto, ou pelo parcelamento em até oito vezes, sem abatimento. Não há previsão de isenção ou anistia, mas débitos em atraso podem ser renegociados.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br