Com problemas de poluição, represa Billings faz 100 anos hoje

Quem navega pela Billings, na zona sul de São Paulo, que abriga distritos como o Grajaú, mais populoso da cidade, logo vê paisagens muito diferentes das de um centro urbano. Criada originalmente para a geração de energia, a represa completa cem anos nesta quinta-feira (27) com problemas antigos, como a qualidade da água, e projeções para seu futuro.
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Saindo do distrito de Pedreira, é possível observar, além das embarcações do transporte aquático da prefeitura, bairros que crescem próximos às margens, outros já com contenções e um parque linear, alguns pescadores e áreas com vegetação preservada.
Mas um problema fica rapidamente visível, como constatado pela reportagem na última terça-feira (25). Assim que a lancha parte de uma base da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), aparece uma espécie de película verde sobre a água.
Essa camada resulta da floração de cianobactérias do gênero Microcystis spp, cuja proliferação está ligada à presença de esgoto. Quanto mais poluentes, mais algas e mais camada verde.
Antes de ser um reservatório voltado para o abastecimento para ao menos 1,4 milhão de pessoas, especialmente em São Bernardo do Campo, Diadema e Santo André, a Billings começou a ser construída em 1925 para a geração de energia. Foi naquele ano que a empresa canadense São Paulo Tramway, Light and Power Company -também a responsável pelos bondes no início daquele século- foi autorizada pelo governo federal a modificar o rio Tietê e seus afluentes para criar uma barragem. O nome vem do engenheiro americano Asa White Kenney Billings, idealizador do projeto.
Essa vocação persiste cem anos depois, embora secundária. A Usina Henry Borden, localizada no sopé da serra do Mar, em Cubatão, é acionada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para contribuir com o Sistema Interligado Nacional. Com uma geração média de 889 MW (megawatts), a planta tem capacidade de abastecer 4,27 milhões de residências. Desde 1992, o complexo só pode bombear água do rio Pinheiros para a Billings para o controle de cheias, o que reduziu a energia produzida em 75%, segundo a Emae.
Para isso, a Henry Borden, que está com 99 anos, utiliza uma queda de 720 metros entre o ponto de captação e o local de duas usinas para movimentar as turbinas. Depois desse processo, a água segue para o rio Cubatão, onde será captada pela estação de tratamento da Sabesp (companhia de saneamento), que abastece Santos e São Vicente e pode levar água a outras cidades da Baixada Santista.
A geração de energia elétrica também acontece no reservatório, com uma usina fotovoltaica flutuante capaz de gerar 10 GWh (gigawatts-hora) por ano, segundo a Emae.
Embora a represa esteja presente no abastecimento e também se projete para os próximos anos como parte de geração solar de energia elétrica, problemas antigos, como a ocupação desordenada e a falta de tratamento adequado de esgoto podem ameaçar o reservatório.
É o que diz o assessor jurídico do Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC, o advogado Virgílio Alcides de Farias, 70, que milita há quatro décadas pela melhoria da qualidade da água na região.
Nesta quinta-feira, a organização publicará uma carta mostrando uma série de leis que não estaria sendo respeitada por governos e concessionárias.
Virgílio lembra da mobilização para a Constituinte, na qual o movimento reuniu 18.600 assinaturas para pedir o que virou o artigo 208, que veda lançamento de esgotos urbanos e industriais sem o devido tratamento em qualquer corpo d'água do estado. O tema também aparece no artigo 46 das disposições transitórias, que determina três anos -prazo expirado em 1992- para que poderes estadual e municipal atuassem para impedir o bombeamento dessa água com poluentes.
Ele também critica o bombeamento do Pinheiros para a Billings para o controle de cheias. "Hoje, a maior quantidade de esgotos e sujeira que a represa recebe é quando bombeiam para minimizar enchente. Minimiza a enchente e inviabiliza um manancial com 127 km² de espelho d'água para abastecimento público."
Segundo a professora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Marta Marcondes, que trabalha com o monitoramento da água da Billings, áreas de São Paulo como Grajaú, Cantinho do Céu, Jardim Apurá e Jardim Tangará são as mais prejudicadas. "São muito adensadas. Nós temos cerca de 20 pontos de coleta ali. E esses 20 são péssimos desde 2015, só vêm piorando."
Ela também cita o acúmulo de sedimentos, sujeira e algas em alguns pontos da represa, o que já atrapalha a navegação, como visto pela reportagem na terça. O temor, segundo Marta, é que a água das partes mais poluídas chegue a pontos de captação como o que leva água para a represa Guarapiranga. Segundo a Sabesp, essa transferência só é realizada em situações críticas.
O problema também está no radar do Ministério Público, que instaurou um inquérito civil em 13 de março para apurar a contaminação e pediu informações à prefeitura, à Sabesp e à Cetesb (companhia ambiental de SP) sobre o tema.
A Emae diz trabalhar em parceria com outros órgãos, como Sabesp, Governo de São Paulo e prefeituras, para fazer ações de conscientização da população contra o despejo de lixo. Além disso, cedeu o terreno para a criação do Parque Linear Cantinho do Céu. Também disse que vai plantar, nesta quinta, 100 mil mudas para formar um corredor ecológico de 100 km de extensão.
A Sabesp afirma que vai investir, até 2029, R$ 60 bilhões em obras. A companhia afirma que a captação de água na região é feita no braço rio Grande, "totalmente separado da represa Billings". "A qualidade da água fornecida à população é uma prioridade para a companhia."
O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirma que segue a legislação federal e possui ações para o bombeamento do rio Pinheiros para a Billings em situações críticas. A operação de rotina, feita pela Emae, faz rebaixamentos preventivos para manter um volume que possa absorver água de chuvas e mitigar possíveis alagamentos. O governo pretende assumir o acompanhamento do sistema com a recém-criada SP Águas, agência vinculada à pasta de ambiente.
Como ações de limpeza de rios, a gestão afirma ter retirado 2,89 milhões de metros cúbicos de sedimentos do Tietê e afluentes. No Pinheiros, foram retirados 600 mil metros cúbicos de sedimentos. O lixo flutuante retirado soma 83,4 mil toneladas desde 2023.
O governo também cita investimentos de R$ 8,6 milhões da Cetesb em novas estações para melhorar o monitoramento da qualidade da água.
Já a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) diz que tem uma secretaria executiva específica para cuidar do Programa Mananciais, com ações de habitação, ambiente e urbanismo. "Somente na represa Billings, a atual gestão realizou a implantação de 79.623 m² de parques lineares e obras de infraestrutura de drenagem em 36.016 m² da região."
Também citou 2.526 ligações de esgoto e 1.670 de água na região, em convênio com a Sabesp, e disse que as obras na Estrada do Alvarenga, que foi alargada, vão adequar e aumentar a rede coletora de esgoto. "Até o momento, já foram executadas melhorias em 2.500 mil metros lineares da rede de esgoto."
Billings, 100 anos
- Área: 127,15 km²
- Capacidade: 1,2 bilhão m³ de litros de água
- Volume: 69% (em 25.mar.25)
- Público atendido: 1,4 milhão de pessoas, especialmente em São Bernardo do Campo, Diadema e Santo André
- Vazão média de água: 21,2 mil litros por segundo
- Capacidade da usina fotovoltaica flutuante: 10 Gwh por ano.
Usina Henry Borden
Inauguração: 10 de outubro de 1926 Geração média: 889 MW Capacidade: 4,27 milhões de residências com 150 kWh por mês Fontes: Emae e Sabesp