SAÚDE

Motoristas de aplicativo e caminhoneiros têm maior risco de AVC

Por Andréia Marques | Especial para Todo Dia Campinas
| Tempo de leitura: 3 min
Tempo prolongado que esses profissionais passam sentados pode aumentar significativamente o risco de problemas cardiovasculares graves
Tempo prolongado que esses profissionais passam sentados pode aumentar significativamente o risco de problemas cardiovasculares graves

A vida nas estradas não é fácil. O trânsito carregado das grandes cidades tem deixado quem depende dos veículos para trabalhar com a saúde prejudicada. Motoristas de aplicativos, caminhoneiros e representantes comerciais passam horas diárias dentro dos veículos, enfrentando não apenas os desafios do trânsito, mas também os impactos à saúde que essa rotina pode causar.

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Um estudo recente publicado na revista científica JAMA Cardiology trouxe à tona uma preocupação séria: o tempo prolongado que esses profissionais passam sentados pode aumentar significativamente o risco de problemas cardiovasculares graves, como acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e infartos. Segundo a pesquisa, pessoas que permanecem sentadas por mais de oito horas por dia apresentam uma probabilidade até 20% maior de desenvolver essas doenças, quando comparadas com aquelas que têm uma vida mais ativa.

A motorista de aplicativo Kátia Martins Pereira dirige há dois anos. Começou a trabalhar com o Uber depois que ficou desempregada. Entre uma viagem e outra, ela passa cerca de quatro horas dentro do carro. “É cansativo demais. Acordo cedo, saio para dirigir o dia todo. O trânsito não é fácil, é muito estressante. Às vezes saio do carro para me alongar um pouco e dar uma relaxada.”

O taxista Carlos Eduardo dos Santos Silveira disse que sente bastante os efeitos do trânsito na saúde, apesar de ainda não ter procurado um médico para fazer exames preventivos. “Preocupa, né? Às vezes sinto dores nas costas, nos ombros. E agora, sabendo desse risco maior de ter um AVC ou infarto, a preocupação só aumenta.”

Substância tóxica

Outro estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, revelou que muitos carros modernos podem conter traços de fosfato de tris, uma substância potencialmente prejudicial à saúde humana. Embora a quantidade encontrada seja geralmente baixa, a exposição prolongada e sob temperaturas elevadas pode acarretar complicações à saúde ao longo do tempo.

A pesquisa demonstrou que o ar interno de carros fabricados a partir de 2015 pode conter substâncias conhecidas como retardantes de chamas. Essas substâncias têm chamado a atenção de toxicologistas nos últimos anos devido ao potencial carcinogênico, neurotóxico e de desregulação hormonal que podem causar nas pessoas expostas.

“Os retardantes de chamas são adicionados pela indústria automobilística principalmente na espuma dos bancos, justamente para cumprir padrões de segurança contra incêndios. Em caso de incêndio, esses produtos impedem que as chamas se espalhem rapidamente, então são os bancos dos automóveis que possuem a maior quantidade dessas substâncias químicas”, explicou o professor Maurício Yonamine, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o estudo, em dias quentes há maior concentração desses compostos no ar do interior do veículo, o que pode ser explicado pelo fato de que o calor facilita a liberação e evaporação dessas substâncias para o ar interno do carro. Ele, porém, alerta que a quantidade encontrada no ambiente interno do automóvel geralmente é muito baixa, sendo imperceptível e não capaz de provocar efeitos agudos, ou seja, efeitos que possam ser sentidos no dia a dia logo após a exposição.

“A pessoa então não consegue perceber que está sendo exposta. Os efeitos poderão ocorrer após anos de exposição frequente em baixas doses, e alguns desses efeitos podem ser o aparecimento de câncer, danos neurológicos e problemas de reprodução. Desta forma, uma especial atenção deve ser dada a motoristas que passam muito tempo dirigindo ou crianças, que são geralmente mais suscetíveis”, conta.

Prevenção

O professor Maurício Yonamine destaca medidas preventivas essenciais para reduzir a exposição a retardantes de chamas nos carros. Abrir as janelas do veículo por alguns minutos para permitir a circulação de ar externo, estacionar na sombra em dias quentes para evitar a liberação desses compostos e lavar as mãos após viagens são práticas recomendadas. Essas precauções são fundamentais para prevenir doenças relacionadas à exposição, pois os sintomas não são percebidos no dia a dia, alertou.

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