As cidades de Campinas e Franca (SP) disputam a “guarda” de uma relíquia da história paulista. A criança em questão é a “Maria Fumaça”. De um lado, um vereador francano pedindo informações sobre o seu “paradeiro”. De outro, a Prefeitura campineira, que está com a “tutela” da locomotiva. No centro da disputa, um veículo que sofreu as ações do tempo.
Sinônimo de progresso no passado, a Maria Fumaça está longe dos períodos de glória. Hoje, está limitada a ocupar um espaço no galpão, com chão de pedra brita e estrutura metálica, da antiga estação ferroviária “Carlos Gomes”, localizada numa extensa estrada de terra próxima ao município de Mogi Mirim (SP).
A reportagem do portal Sampi Campinas visitou a estação ferroviária e encontrou dezenas de locomotivas, de diferentes épocas e regiões, paradas no galpão. Os operários têm a dura missão de restaurarem os patrimônios históricos, que sofreram com a ação do homem e do tempo, sem perder suas características. Com essa longa fila de veículos, não há previsão de quando a relíquia disputada por ambas as cidades será reformada.
Para os amantes de locomotivas, a Maria Fumaça em questão é o modelo Bayer Peacock, série 400, do longínquo ano de 1896. Circulou na linha tronco da Cia. Mogyana até o ano de 1971. Com a “lataria” externa em boas condições, a carência é, principalmente, na parte mecânica do equipamento.
Enquanto não é reformada, a locomotiva está coberta sob camadas de poeira, cercada por teias de aranha e à espera de dias melhores, uma vez que suas glórias ficaram no passado.
Disputa
A briga pela paternidade começou quando o vereador de Franca Ilton Ferreira (PL) pediu informações sobre o paradeiro da máquina a vapor. Segundo ele, a Prefeitura de Franca cedeu a locomotiva para a ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) de Campinas. A concessão duraria 25 anos e depois retornaria, totalmente restaurada, para o município do Nordeste paulista.
“Em 2016, venceu essa cessão de uso e até a presente data estamos sem a Maria Fumaça. Tivemos uma resposta na semana passada da Prefeitura (informando) que, simplesmente, o Conselho do Patrimônio de Campinas não quer devolver”, afirmou o vereador, em matéria publicada pelo portal GCN, filiado a rede Sampi de notícias, na manhã desta quinta-feira, 10.
O desejo do parlamentar tem explicação. Ilton sugeriu colocar a Maria Fumaça na antiga Estação Mogiana. A construção histórica estava abandonada a décadas e servia de abrigo para os moradores de rua. A Prefeitura de Franca enfrentou uma via-sacra para encontrar uma empresa que se interessasse pelo projeto. Após a terceira licitação, a revitalização do prédio finalmente teve início pelo valor R$ 2,9 milhões.
“É um patrimônio cultural, é um patrimônio histórico, podemos colocar lá próximo do prédio da Alta Mogiana”, disse. Para que isso aconteça, ainda segundo Ilton, Campinas está fazendo jogo duro. “Estamos mandando um requerimento, e peço a força do Legislativo e da mídia, porque a Maria Fumaça é nossa! E ela tem que estar em nossa cidade”.
A Prefeitura de Franca ingressou com um processo administrativo junto à Prefeitura e ao Conselho do Patrimônio Histórico de Campinas. Como a devolução foi indeferida pelos órgãos, a administração francana entrará com ação judicial para reaver a locomotiva.
Posição da Prefeitura de Campinas
Em nota, a assessoria da Prefeitura de Campinas informou que a Lei sobre Patrimônio Histórico e Cultural é baseada nos artigos 215 e 216 da Constituição Federal. Diante da legislação, o Condepacc (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas) iniciou os processos de Tombamento em 1989, e o último é do ano de 2014.
“A abertura de um processo ocorre independentemente da propriedade, desde que esteja o bem com a sua propriedade dentro do município de Campinas”, diz o texto.
Assim como o Complexo Ferroviário de Campinas, a locomotiva “Maria Fumaça” – por estar no município – também foi tombada pelo Condepacc. “O bem em questão segue a legislação e está com a propriedade em nosso município”.
Ainda segundo a Prefeitura, os órgãos patrimoniais têm até 2 anos para definirem o tempo que a locomotiva, ou qualquer outro bem móvel, podem ficar fora do local original de tombamento.
Se o proprietário da locomotiva apresentar ao Condepacc um projeto – de preservação, conservação, manutenção e guarda – caberá ao corpo técnico analisar a solicitação. Caso seja aprovado, será encaminhada a liberação do veículo ao Condepacc.
A nota termina em resposta as alegações feitas pelo vereador francano, Ilton Ferreira. “Sugerimos que o nobre vereador solicite uma assessoria jurídica específica sobre legislação patrimonial histórica cultural, por ser muito específica e elaborada em todas as instâncias governamentais, para auxiliá-lo na proposta do bem comum da sociedade”, finaliza.
Comentários
6 Comentários
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Swerts 05/03/2024A máquina não tem que ir para Franca virar banheiro de mendigo em praça. Tem que ficar em Campinas com a ABPF, que é a única entidade de preservação competente do país. -
Marcus Vinicius das Neves Vianna 14/11/2022A estação Carlos Gomes não fica próximo de Mogi Mirim e sim mais próximo de Jaguariúna. E existe um passeio aos fins de semana e feriados entre Campinas e Jaguariúna com as famosas locomotivas Maria fumaça, e com certeza essa não vai demorar para ser restaurada e ganhar os trilhos novamente. -
Hudson 13/11/2022Não é só desejo do parlamentar, a população quer a locomotiva de volta -
TIAGO MALTA 13/11/2022Vereador tá sem o que fazer mesmo -
Darsio 13/11/2022O que até hoje eu não entendi é o porque de Pedregulho ter perdido a sua Maria Fumaça, sabendo-se que nos finais de semana a cidade recebia vários turistas e de toda a região de Ribeirão Preto para então fazerem o passeio turístico até Igaçaba. Algo que muito acrescentava para a economia da região. Ou seja, como as autoridades pedregulhenses conseguiram ser tão incompetentes assim!!! Ou agiram de má fé? -
José 13/11/2022Franca precisa de investimento na segurança pública, não em ferro velho