POLÍCIA

PF diz que Canella é 'patrono' de grupo que movimentou R$ 7,6 bi

Por Bruna Fantti | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Rafael Wallace/Alerj/Divulgação
Márcio Correia de Oliveira, o Márcio Canella, foi preso na manhã desta quinta-feira
Márcio Correia de Oliveira, o Márcio Canella, foi preso na manhã desta quinta-feira

A Polícia Federal descreve Márcio Correia de Oliveira, o Márcio Canella, como "patrono político e articulador de alto escalão" de uma organização criminosa que, segundo a investigação, movimentou R$ 7,6 bilhões com uma rede de postos de combustíveis no Rio. Ele foi preso em operação nesta quinta-feira (15).

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Na representação ao STF (Supremo Tribunal Federal), os investigadores dizem que ele é o "elo entre o poder público, a rede econômica e as franjas armadas" do grupo. O valor é uma estimativa do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para o período de 11 de maio de 2020 a 12 de março de 2026 e envolve 835 pessoas e empresas.

Em nota, a defesa de Canella afirmou que ele "disse que confia em Deus, na Justiça e que tem certeza que tudo será esclarecido".

A PF afirma que Canella é o "patrono das nomeações do grupo". Segundo a representação, ele "foi o responsável direto por capitanear a indicação" de Marcus Vinicius Amim Fernandes, com prisão decretada, para a presidência do Detran-RJ (Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro) e para a Secretaria de Polícia Civil, "uma vez que articulou manobra legislativa na ALERJ para flexibilizar os requisitos temporais do cargo". Amim tinha dez anos como delegado o que, pela lei orgânica da Polícia Civil da época, inviabilizava a nomeação. A lei foi alterada, e a nomeação foi realizada.

O advogado Thiago Minagé, que atua na defesa de Amim, disse que aguarda acesso à decisão para prestar prestar esclarecimentos.

A expressão "franjas armadas" aparece uma vez no documento, sem definição. A PF diz que o grupo mantém "pontes operacionais com milícias e com o tráfico de drogas" e cita três exemplos. O primeiro é a nomeação de ex-vereadores "sob investigação por liame miliciano" como secretários em Belford Roxo. O segundo é a "íntima vinculação" com Juracy Alves Prudêncio, o Jura, apontado como líder miliciano.

O terceiro é um suposto acordo com o CV (Comando Vermelho). A PF cita áudios em que um capitão da Polícia Militar, depois expulso, aparece negociando com chefes da facção e agindo como "intermediário dos interesses da gestão municipal chefiada" por Canella.

Segundo a representação, os traficantes retiravam barricadas para obras da prefeitura e, em troca, haveria "o recuo deliberado das incursões operacionais do Estado" e a "devolução pacífica do pleno controle territorial" ao tráfico depois das obras.

Na casa de Canella, a PF apreendeu armas de fogo e munições, o que, segundo ela, "converge a vertente de coerção armada da organização criminosa". Também apreendeu relógios Rolex, Hublot, Bvlgari, Panerai e Breitling, dois carros de luxo e duas motos de grife. Na decisão, Moraes afirma que o armamento, "embora isoladamente não seja determinante, reforça o contexto de especial periculosidade concreta".

Manuscritos apreendidos na casa de José Carlos Alves de Souza Júnior, apontado como gestor financeiro do grupo, atribuem a Canella repasses recorrentes de um posto de gasolina: R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último sob o codinome "amigo". Em outro trecho, a PF fala em "repasses recorrentes em espécie, sem lastro contratual, superiores a R$ 139 mil" oriundos de outros dois postos. Segundo a representação, um cunhado de Canella está no quadro societário dos estabelecimentos.

A quebra de sigilo bancário mostrou, segundo a PF, que Canella recebeu cerca de R$ 2,59 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026, dos quais R$ 1,4 milhão vieram de uma empresa da qual ele é sócio. Os bancos não conseguiram identificar a origem primária do dinheiro. Parte dele foi repassada a familiares e a integrantes do círculo político de Canella, segundo a PF.

A PF ressalva que Canella, "ainda que não identificado como operador direto das movimentações financeiras do grupo, ocupa posição de beneficiário recorrente de recursos originados no núcleo econômico investigado".

Christiano Gaspar Fernandes, também preso, é descrito como policial civil reintegrado depois de demissão por "acusação de vínculo com organização miliciana" e, atualmente, é secretário de Ordem Urbana de Belford Roxo. Fernandes foi preso na operação Guilhotina e absolvida em segunda instância. Expulso, ele foi reintegrado na Polícia Civil e atuou como chefe de investigação de Amim na DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes).

Moraes fundamentou a prisão em "risco concreto à ordem pública, à instrução criminal e à própria eficácia da persecução penal". O limite de bloqueio, de R$ 700 milhões, vale para todos os investigados. A reportagem busca as defesas dos outros citados.

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