OPINIÃO

Explicando a Reabsorção Intracoronária Pré-Eruptiva


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Uma reabsorção entre esmalte e polpa, com ambos preservados, ocorre em dentes abaixo da mucosa, quase a brotar na boca. Parece cárie, mas solapa o esmalte sem atingir a polpa e foi descrita por Schindler em 1941 como Reabsorção Intracoronária Pré-Eruptiva, ou RIPE entre nós. Mas, pouco se sabia sobre a causa.

PRESSUPOSTOS

Quando desvendamos a origem da Reabsorção Cervical Externa, primeiro fomos procurar os fundamentos. E a primeira pergunta foi: - como era o colo do dente, ou mais precisamente, a junção amelocementária. ,

Tudo era Choquet que em 1899 analisara cortes por desgaste de dentes ao microscópio comum. Para cada dente, um corte apenas. Em 10% dos dentes ou cortes, havia áreas que o esmalte e o cemento não se encontram, com janelas ou gaps de dentina expostos ao gel da matriz extracelular da gengiva que as recobre até aos 30 anos de idade. Mas, foi visto apenas um corte da linha da junção.

Quando traumatismos se concentram nesta área, a inflamação da gengiva dissolve o gel protetor e expõe a dentina das janelas ou gaps e suas proteínas antigênicas, os antígenos sequestrados. Os osteoclastos comandados pelo sistema imunológico reabsorvem a dentina no colo, dando origem a Reabsorção Cervical Externa. Quando se fazia muito clareamento externo, o peróxido de hidrogênio e derivados saiam da câmara pulpar pelos túbulos que se abriam nas janelas e também inflamavam e dissolviam o gel gengival.

Em um trabalho publicado aqui e exterior, vimos na microscopia eletrônica de varredura que todos os dentes humanos permanentes e decíduos tem janelas ou gaps de dentina ao longo de toda a linha da junção amelocementária. Aí ficou mais fácil compreender a frequência deste tipo de reabsorção. E fizemos uma analogia com a mitologia grega chamando a junção amelocementária de “o calcanhar de Aquiles do dente”.

ALGO A REVELAR

Usando minha IA, perguntei a ela: alguém já pesquisou a fundo o fundo do esmalte das fossetas e fissuras para saber se sempre tem esmalte ou, às vezes, tem dentina exposta nas profundezas? Ela me respondeu que na década de 60 e 70, estudaram em cortes por desgastes para saber se eram regiões onde tinha menor ou maior susceptibilidade à carie, mas não valorizaram se tinha dentina exposta no fundo das fissuras, mas as fotos de cortes nestes trabalhos, mostravam isto.

Antes do dente irromper, sua coroa tem o folículo pericoronário ao redor. Para acabar de erupcionar, ele libera mediadores e inflama dissolvendo o seu gel, tal como o gel gengival. Inflama-se também pelos traumatismos que a mucosa bucal sofre logo acima. Assim, nos pontos do fundo das fissuras e fossetas que têm janelas de dentina, faz o sistema imunológico ativar os osteoclastos para reabsorver as proteínas antigênicas da dentina também aqui neste local, tal qual na junção amelocementária.

Dessa forma começa uma reabsorção dentinária abaixo do esmalte que quase fica intacto. Assintomática e lenta, quando chega perto da polpa não a perfura, pois ela tem uma camada interna não mineralizada que afasta os clastos do local mais próximo, virando os para os lados a continuar sua missão reabsortiva.

REFLEXÃO FINAL

O mecanismo proposto procura explicar o último tipo de reabsorção que ainda estava obscuro quanto ao mecanismo. As pesquisas confirmarão que existem janelas ou gaps de dentina expostas nos fundos das fissuras e fossetas. Eles devem estar mais presentes nos molares e pré-molares, mas caninos e incisivos superiores também têm muitas fossetas e sulcos linguais. Isto elucida muitos casos clínicos. O diagnóstico e a terapêutica poderão se tornar mais eficientes.

Obs.: Em detalhes, em breve na revista “Clin Orthod, 2026” no DentalGo: “Reabsorção Intracoronária Pré́-Eruptiva ou RIPE: sua causa e o mecanismo proposto para a compreensão” junto com Sobral Filho B. e Consolaro IAO.

(Alberto Consolaro – Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC)

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