OPINIÃO

Polifonia política em tempos de redes individuais

Por Roberto Pallu | Produtor Audiovisual
| Tempo de leitura: 4 min

Faltando alguns dias para a eleição, o barulho é grande.
Barulho sonoro, visual, gestual.
Tudo chega. Nada para.

Uma frase atravessa a tela. Uma imagem atropela a anterior. Um gesto vira símbolo. Um recorte vira verdade. Uma indignação nasce, cresce, explode e desaparece antes que alguém consiga compreender exatamente o que aconteceu. E outra já tomou seu lugar.

Vivemos uma espécie de polifonia permanente. Muitas vozes falando simultaneamente, mas cada vez menos gente escutando.
Talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo: nunca tivemos tantos instrumentos para nos comunicar e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil estabelecer uma conversa.
As redes são chamadas de sociais, mas tornaram-se profundamente individuais. O conceito estabelecido no passado, entre emissor e receptor, está com sérios ruídos. Cada pessoa constrói sua própria janela para o mundo. Escolhe quem segue, quem bloqueia, o que compartilha, o que rejeita. E os algoritmos completam o trabalho, selecionando aquilo que provavelmente despertará atenção, permanência, reação ou indiferença.

A praça pública foi fragmentada em milhões de pequenas praças particulares.
Praças antropocêntricas. Cada uma com seus discursos, suas certezas, seus medos, seus inimigos, seus heróis.
A política entrou nessa engrenagem.
Durante muito tempo, a comunicação política procurou disputar narrativas.
Hoje, disputa segundos.
Antes era necessário convencer. Agora, muitas vezes, basta interromper.
A frase precisa ser curta.
A imagem precisa impactar.
O vídeo precisa prender. A reação precisa ser imediata.
E assim a política corre o risco de abandonar uma de suas matérias-primas fundamentais: o tempo da reflexão. A sua própria sanidade insana.
Porque compreender exige tempo.
Duvidar exige tempo.
Mudar de opinião exige tempo.
Ouvir alguém com quem discordamos exige ainda mais.
Mas a lógica das redes recompensa justamente o contrário: velocidade, certeza, simplificação e reação.
Tudo chega. Nada para.
Talvez essa seja a síntese.
Não existe mais, necessariamente, um começo, um meio e um fim para o debate público.
Existe um fluxo.

Quando começamos a compreender um acontecimento, outro já apareceu. Quando uma explicação começa a amadurecer, uma nova indignação ocupa a tela. Quando uma dúvida poderia finalmente produzir reflexão, chega uma certeza pronta para substituí-la.
E seguimos. Rolando a tela. Comentando. Compartilhando. Reagindo.
O paradoxo é brutal: estamos permanentemente conectados ao mundo e podemos estar progressivamente afastados da compreensão dele.
Nem a luz se acende à escuridão neutra.
Porque talvez nem exista mais essa escuridão neutra.
Antes mesmo de conhecermos um fato, ele frequentemente já chega interpretado. Tem legenda. Tem enquadramento. Tem música. Tem corte.
Tem alguém dizendo como devemos enxergá-lo.
Não recebemos apenas acontecimentos.
Recebemos acontecimentos acompanhados de sentidos.
A neutralidade desaparece não necessariamente porque todos decidiram tomar partido, mas porque o próprio caminho da informação passou a carregar escolhas. O que mostrar? O que esconder? Onde cortar? Qual palavra usar? Qual imagem colocar primeiro? Tudo comunica. Até o silêncio.
E onde fica a política?
Talvez justamente no lugar mais difícil.
Entre o barulho e a escuta.
Política não deveria ser apenas a capacidade de falar para quem já concorda conosco. Nem a habilidade de produzir o conteúdo mais rápido, a frase mais agressiva ou o vídeo mais compartilhado. Nesse cenário, vale buscar Pirandello para reforçar uma ideia que parece cada vez mais contemporânea:
“Nada se é como se lhe parece.”
Porque aquilo que vemos já não é necessariamente aquilo que aconteceu. É aquilo que chegou até nós — recortado, editado, comentado, compartilhado e novamente interpretado.
Política pressupõe convivência.
E convivência pressupõe reconhecer a existência do outro.
Não necessariamente concordar, mas reconhecer. Saber que ele existe e está lá.

A democracia sempre foi, de alguma maneira, polifônica. Ela nasce da coexistência de interesses, opiniões, conflitos, sonhos e diferentes visões de sociedade.
O problema não está na existência de muitas vozes.
O problema começa quando as vozes deixam de formar diálogo e passam apenas a disputar volume. Quando todos aumentam o tom para serem ouvidos, o resultado não é comunicação. É ruído.
Talvez o próximo desafio da política seja reaprender a escutar
Escutar o território.
Escutar as pessoas.
Escutar inclusive aquilo que não cabe perfeitamente numa pesquisa, numa postagem ou numa bolha digital.
Porque existe vida fora da timeline.
Existe gente que trabalha, pega ônibus, planta, ensina, cuida dos filhos, abre uma pequena empresa, procura emprego, frequenta igreja, joga bola, toma café na esquina e conversa com o vizinho.
Essa sociedade não cabe inteira dentro de algoritmo algum.
É dela que a política nasce.
E talvez seja para ela que precise voltar.
Num mundo em que todos parecem obrigados a dizer alguma coisa imediatamente, talvez ouvir tenha se transformado em um dos gestos políticos mais importantes.
Não para construir uma neutralidade impossível.
Mas para recuperar algo ainda mais essencial:
a possibilidade de compreender antes de responder.

O barulho continuará grande.
Sonoro.
Visual.
Gestual.
Tudo continuará chegando.
A questão política do nosso tempo talvez seja descobrir se, em algum momento, ainda seremos capazes de fazer alguma coisa parar.
Nem que seja por alguns segundos.
O suficiente para pensar.

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