COLUNISTA

Tá liberado o quê, afinal?


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O Brasil ficou pelo caminho em mais uma Copa. Mas antes da eliminação, uma cervejaria tinha feito uma promessa: se a Seleção fosse campeã, a empresa liberaria cerveja de graça para o país inteiro. O nome da campanha era "Tá Liberado Acreditar". Atrativo, empolgante, parecia só uma jogada de empresa apaixonada pelo seu país. Mas antes de aplaudir, vale fazer uma pergunta incômoda: o que estaria sendo liberado de verdade? Porque não seria apenas cerveja. Cerveja por si só, é apenas um produto, é logística, é lata ou garrafa numa prateleira de supermercado. O que estava sendo prometido, escondido atrás de um discurso emocionante, era outra coisa - e essa coisa não vem numa lata, nem tem prazo de validade estampado no rótulo.

Uma campanha assim não nasce por acaso. Tem briefing, tem planilha, tem aprovação em comitê, tem projeção de lucro, tem gente calculando retorno de marca em cima da emoção do torcedor. Ninguém aprova uma ação dessas por impulso; é decisão fria, revisada por jurídico, testada em pesquisa. E aqui cabe a pergunta que incomoda: onde estavam os órgãos que deveriam pôr freio nisso? O CONAR, que regula a publicidade de bebida alcoólica no Brasil? A Lei 9.294/96? A Anvisa, que discute há anos restrições mais duras? O Código de Defesa do Consumidor? Passou tudo! Foi ao ar em rede nacional, com direito a ídolo do penta segurando o troféu. E o Brasil segue sendo o país onde segundo estudo da Fiocruz baseado em dados da Organização Mundial da Saúde, o álcool mata 12 pessoas por hora — mais de 104 mil mortes registradas em um único ano.

Tem mais: Além disso, um levantamento da ACT Promoção da Saúde aponta que, em pelo menos um quarto dos casos de violência contra a mulher no Brasil, o agressor havia consumido bebida alcoólica. É importante esclarecer: o álcool não causa a agressão, ele apenas a viabiliza. Freud chamava esse freio de superego: a instância da mente formada pela consciência e pelos valores internalizados, responsável por conter os impulsos mais primitivos do id. Podemos entender isso como a parte da nossa mente que abriga nossos valores e a consciência. É o superego que atua como um 'freio', contendo impulsos agressivos e impedindo atos impensados. Quando alguém bebe, esse freio é enfraquecido. Portanto, o álcool não cria a violência; ele apenas remove a barreira interna que a mantinha sob controle.

É aqui que a Bíblia traz uma verdade que nenhum comercial de TV ousaria pronunciar: o problema não é que o álcool gera um impulso inédito no coração humano, mas que ele expõe o declínio que sempre residiu nele. É o que os reformadores chamavam de Depravação Total: o pecado mora na raiz de cada coração, represado apenas pela consciência e pela graça comum de Deus. A Bíblia é direta: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jeremias 17.9). Paulo descreve essa mesma guerra interna: "o bem que quero, não o faço; mas o mal que não quero, esse faço" (Romanos 7.19). Por isso a Escritura jamais chamaria de "liberdade" aquilo que a publicidade decidiu vender como tal. Quase dois mil anos antes de qualquer agência de propaganda existir, o apóstolo Pedro já denunciava esse tipo de promessa: falsos mestres que prometem liberdade, sendo eles mesmos escravos da própria corrupção (2 Pedro 2.19). É o tipo de campanha "Tá Liberado Acreditar" - desmontada por uma carta escrita há dois milênios.

Pense nos doze nomes que se apagam a cada hora: pais que não voltam, mães enterradas cedo, filhos sem colo, esposas que temem o barulho da chave na porta. É por essas pessoas que a Bíblia pede sobriedade - não como regra que sufoca, mas como proteção que liberta de verdade: "não vos embriagueis [...] mas enchei-vos do Espírito" (Efésios 5.18). "Domínio próprio" é fruto do Espírito Santo (Gálatas 5.22-23), e nenhuma campanha publicitária tem poder de produzi-lo; o que ela sabe fazer é desligar esse freio. A liberdade verdadeira também tem preço, só que já foi pago: não vem gelada, com resgate 'gratuito' e limitado por CPF; custou sangue, e foi Cristo quem garantiu que "se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (João 8.36). Por isso a diferença que nenhuma campanha confessa: quando uma empresa lucra desligando esse freio em milhões, quem paga depois raramente é quem bebeu a mais - são os doze nomes. Viva com mais consciência: a genuína liberdade não vem numa lata, vem de uma cruz.

 

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