COLUNISTA

Não tomem quartéis, tomem escolas

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Há uma frase atribuída ao filósofo e político marxista italiano Antonio Gramsci que atravessou o século XX e chegou até nós com força desconcertante: "Não tomem quartéis, tomem escolas e universidades. Não ataquem blindados, ataquem ideias". Essa sentença resume com clareza brutal uma das estratégias mais sofisticadas já elaboradas para transformar sociedades inteiras sem disparar um único tiro. Entendê-la não é opcional para quem quer compreender o mundo em que vive.

Para situar Gramsci no tempo é preciso ir à Sardenha onde nasceu em 1891. Foi escritor, político, crítico literário, filósofo, historiador e teórico marxista - muitos são os rótulos atribuídos a Antonio Gramsci. Tornou-se um dos fundadores do Partido Comunista Italiano e líder da oposição ao regime fascista de Benito Mussolini. Em 1926 foi condenado a 20 anos de prisão onde escreveu os "Cadernos do Cárcere", sistematizando suas principais ideias que se espalharam pelo mundo.

O que Gramsci percebeu dentro das grades foi que a revolução marxista armada, nos moldes do que acontecera na Rússia em 1917, não seria replicável no Ocidente. A classe trabalhadora ocidental jamais se levantou como Karl Marx previa. As pessoas tinham raízes profundas: família, fé e senso de liberdade. Gramsci propôs então algo mais sutil: a conquista da cultura como caminho ao poder político. No lugar de "Mude a economia, a cultura virá a reboque", Gramsci propôs: "Mude a cultura, a economia virá a reboque - infiltre intelectuais nas escolas, nas universidades e nos meios de comunicação e em algumas gerações a mentalidade coletiva estará moldada -sem guerra declarada, sem sangue visível, mas com resultados igualmente profundos".

É nesse contexto que surge em 1923 na Universidade de Frankfurt, o Instituto de Pesquisa Social, conhecido informalmente como Escola de Frankfurt, formado por marxistas dissidentes. Entre seus fundadores estavam Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin. Buscavam compreender por que a revolução prevista por Marx não havia ocorrido no Ocidente industrial. Com a ascensão de Hitler ao poder em 1933 o Instituto deixou a Alemanha para Genebra antes de se mudar para Nova York em 1935. Marcuse tornou-se a maior influência intelectual da contracultura dos anos 60 nos EUA. Embasado nos pensamentos de Marx e Freud em sua obra Eros e Civilização, argumentou que o capitalismo moderno impõe 'repressão' sobre as pessoas ao mantê-las produtivas, gerando frustração e agressividade social. Suas ideias sobre a libertação do prazer e do corpo contra a lógica do trabalho serviram de base teórica para o movimento hippie, os protestos universitários e a revolução sexual da época.

No cerne dessa visão está a ideia de que a cultura modela a mentalidade e a visão política das pessoas. O que Gramsci e os frankfurtianos tinham em comum era a convicção de que a batalha decisiva não seria travada em campos de batalha, mas em salas de aula, redações de jornais e cadeiras universitárias. A estratégia era desconstruir as referências tradicionais da sociedade: questionar a família como instituição, dissolver a noção de verdade objetiva e substituí-la pelo relativismo, segundo o qual cada indivíduo define sua própria verdade. Dentro dessa lógica, quem defende valores tradicionais passa a ser retratado como intolerante. O debate é encerrado antes de começar.

Cabe aqui uma distinção que o debate público frequentemente confunde. Nazismo, fascismo e comunismo são regimes totalitários que não admitem contradição, mas guardam diferenças reais entre si. O nazismo e o fascismo são fundados em um nacionalismo extremado. O comunismo é internacionalista, buscando implantar uma ordem política e econômica global. Caminhos distintos com o mesmo destino: supressão da liberdade e controle das pessoas. O vandalismo ao patrimônio público, a relativização moral nas escolas, a hostilidade ao pensamento judaico-cristão nos ambientes acadêmicos e o ataque contínuo à família não brotaram do nada. São frutos de uma ideologia exportada com método e paciência ao longo de décadas.

A nossa resposta é que a Bíblia não chama o cristão à fuga do mundo, mas à presença firme. O cristão permanece crendo em um Deus soberano, que instituiu a família desde a Criação como pilar da sociedade e, que define a verdade como algo objetivo e revelado — e não como produto de preferência individual. Assim como judeus e muçulmanos frequentemente mantêm suas convicções intactas aqui no ocidente e mesmo em ambientes hostis, o jovem cristão educado na fé bíblica não deve temer o campus acadêmico. Deve conhecer bem o que crê, compreender o tempo em que vive e, permanecer firme e sem vergonha. A família enraizada na Palavra de Deus continua sendo a trincheira que nenhuma ideologia conseguiu em toda a história humana demolir.

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