HISTÓRIAS DA CIDADE

A história da Estação Central

Por Priscila Medeiros e Alex Gimenez Sanches (historiador) | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Museu Ferroviário Regional
Construção da gare da Estação Central, ao lado da estação da NOB, que foi demolida
Construção da gare da Estação Central, ao lado da estação da NOB, que foi demolida

A construção da Estação Central de Bauru representou um marco na história ferroviária brasileira e consolidou a cidade como o principal entroncamento ferroviário do Interior do país. Inaugurado em 1939, o imponente prédio em estilo Art Déco reuniu em um único complexo as operações da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), da Estrada de Ferro Sorocabana e da Companhia Paulista, tornando-se símbolo de modernidade, integração nacional e desenvolvimento econômico.

A importância da ferrovia para o governo federal estava ligada à necessidade estratégica de integrar Mato Grosso do Sul ao restante do território brasileiro. Após estudos realizados no início do século 20, o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro apontou Bauru como o local ideal para o início da nova ferrovia, após serem trazidos para a cidade por Azarias Leite depois de serem mal recebidos em Pederneiras (veja matéria completa na edição do dia 14 de março). Na época, a cidade ainda era um pequeno núcleo urbano no centro paulista, mas já contava com a estação da Sorocabana, inaugurada em 1905, a mais avançada em direção ao oeste do Estado.

As obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil começaram no mesmo ano, abrindo caminho por regiões ainda pouco exploradas e ocupadas. Diferentemente de outras ferrovias paulistas, que avançavam em direção às áreas produtoras de café, a Noroeste tinha caráter estratégico e geopolítico, conectando o interior do país às demais regiões brasileiras.

Antes da construção da Estação Central, cada companhia ferroviária operava em instalações próprias. A Sorocabana possuía sua estação desde 1905 e o prédio existe até hoje, na altura do quarteirão 1 da avenida Pedro de Toledo. A Noroeste inaugurou sua primeira estação em Bauru em 1906, sendo o prédio demolido após a construção da Gare. Já a Companhia Paulista chegou à cidade em 1910, ampliando a importância de Bauru como ponto de convergência ferroviária. Sua estação está localizada no quarteirão 3 da rua Rio Branco, dentro da área do Museu Histórico Municipal de Bauru.

Com o crescimento do transporte de passageiros e cargas, tornou-se evidente a necessidade de uma estrutura única capaz de atender as três empresas. Diversos projetos foram elaborados ao longo das décadas seguintes. O primeiro, de inspiração francesa, foi concebido em 1905, mas nunca saiu do papel. Em 1922, um novo projeto, mais luxuoso e de estilo historicista, também acabou arquivado.

A solução definitiva surgiu em 1935, quando o engenheiro José Hugo Specht apresentou um projeto alinhado aos ideais de modernização do presidente Getúlio Vargas. O edifício teria mais de 150 metros de fachada e abrigaria tanto os serviços de passageiros quanto a administração da NOB, na parte central do prédio e da Estrada de Ferro Sorocabana, à esquerda e da Companhia Paulista, à direita.

Arquitetura inovadora e pioneira no Brasil

A Estação Central foi concebida para representar visualmente a força e o futuro da ferrovia. Sua arquitetura Art Déco destacava-se pela monumentalidade e pela linguagem moderna, características associadas ao período da Era Vargas.

Um dos elementos mais inovadores do projeto foi a cobertura das plataformas. Construída em concreto armado e inspirada nas estruturas utilizadas em pontes, a solução arquitetônica era considerada revolucionária para a época. O sistema foi pioneiro no Brasil para esse tipo de aplicação, que ainda utilizava estrutura de ferro para esse tipo de construção, transformando a estação em referência nacional de engenharia e arquitetura ferroviária.

Além da imponência visual, o prédio reunia tecnologias avançadas para o período. Com mais de 10 mil metros quadrados de área construída, possuía 54 aparelhos telefônicos automáticos (um dos sistemas mais modernos da região) e passagens subterrâneas ligando as plataformas de embarque e desembarque destinadas a proporcionar mais conforto e segurança aos passageiros.

A relevância da Noroeste do Brasil para os planos de integração nacional também ficou evidente com a visita do presidente Getúlio Vargas às obras da estação, em 20 de julho de 1938. Foi a primeira visita de Vargas ao Estado de São Paulo após a Revolução Constitucionalista de 1932.

De acordo com o historiador Alex Sanches, a Estação Central foi concluída em setembro de 1939, período que coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial. Nas décadas seguintes, tornou-se um dos principais entroncamentos ferroviários do país, chegando a receber cerca de 26 trens de passageiros por dia nos anos 1950.

Com a gradual redução dos serviços ferroviários a partir da década de 1970 e a extinção dos trens de passageiros nos anos 1990, o movimento da estação diminuiu até sua desativação. Em 1999, a administração da Concessionária Ferroviária deixou o prédio.

Reconhecendo sua relevância histórica, arquitetônica e cultural, o complexo ferroviário de Bauru foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) em 2018. O conjunto inclui a Estação Central, oficinas, escritórios, vilas ferroviárias e remanescentes das antigas instalações da NOB, Sorocabana e Paulista.

Atualmente, a Prefeitura de Bauru desenvolve estudos para a revitalização do edifício, com a proposta de transformá-lo na futura sede do Centro Administrativo Municipal, preservando um dos mais importantes patrimônios ferroviários do Brasil.

Saguão da Estação Central dois meses após sua inauguração (Foto: Museu Ferroviário Regional)
Saguão da Estação Central dois meses após sua inauguração (Foto: Museu Ferroviário Regional)
Foto: Joabe Guaranha/Prefeitura de Bauru
Foto: Joabe Guaranha/Prefeitura de Bauru
Estação Central na década de 1940. Na foto também é possível ver a casa cheia de árvores do engenheiro Machado de Melo, no canto direito (Foto: Museu Ferroviário Regional)
Estação Central na década de 1940. Na foto também é possível ver a casa cheia de árvores do engenheiro Machado de Melo, no canto direito (Foto: Museu Ferroviário Regional)

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