A construção da Estação Central de Bauru representou um marco na história ferroviária brasileira e consolidou a cidade como o principal entroncamento ferroviário do Interior do país. Inaugurado em 1939, o imponente prédio em estilo Art Déco reuniu em um único complexo as operações da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), da Estrada de Ferro Sorocabana e da Companhia Paulista, tornando-se símbolo de modernidade, integração nacional e desenvolvimento econômico.
A importância da ferrovia para o governo federal estava ligada à necessidade estratégica de integrar Mato Grosso do Sul ao restante do território brasileiro. Após estudos realizados no início do século 20, o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro apontou Bauru como o local ideal para o início da nova ferrovia, após serem trazidos para a cidade por Azarias Leite depois de serem mal recebidos em Pederneiras (veja matéria completa na edição do dia 14 de março). Na época, a cidade ainda era um pequeno núcleo urbano no centro paulista, mas já contava com a estação da Sorocabana, inaugurada em 1905, a mais avançada em direção ao oeste do Estado.
As obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil começaram no mesmo ano, abrindo caminho por regiões ainda pouco exploradas e ocupadas. Diferentemente de outras ferrovias paulistas, que avançavam em direção às áreas produtoras de café, a Noroeste tinha caráter estratégico e geopolítico, conectando o interior do país às demais regiões brasileiras.
Antes da construção da Estação Central, cada companhia ferroviária operava em instalações próprias. A Sorocabana possuía sua estação desde 1905 e o prédio existe até hoje, na altura do quarteirão 1 da avenida Pedro de Toledo. A Noroeste inaugurou sua primeira estação em Bauru em 1906, sendo o prédio demolido após a construção da Gare. Já a Companhia Paulista chegou à cidade em 1910, ampliando a importância de Bauru como ponto de convergência ferroviária. Sua estação está localizada no quarteirão 3 da rua Rio Branco, dentro da área do Museu Histórico Municipal de Bauru.
Com o crescimento do transporte de passageiros e cargas, tornou-se evidente a necessidade de uma estrutura única capaz de atender as três empresas. Diversos projetos foram elaborados ao longo das décadas seguintes. O primeiro, de inspiração francesa, foi concebido em 1905, mas nunca saiu do papel. Em 1922, um novo projeto, mais luxuoso e de estilo historicista, também acabou arquivado.
A solução definitiva surgiu em 1935, quando o engenheiro José Hugo Specht apresentou um projeto alinhado aos ideais de modernização do presidente Getúlio Vargas. O edifício teria mais de 150 metros de fachada e abrigaria tanto os serviços de passageiros quanto a administração da NOB, na parte central do prédio e da Estrada de Ferro Sorocabana, à esquerda e da Companhia Paulista, à direita.
Arquitetura inovadora e pioneira no Brasil
A Estação Central foi concebida para representar visualmente a força e o futuro da ferrovia. Sua arquitetura Art Déco destacava-se pela monumentalidade e pela linguagem moderna, características associadas ao período da Era Vargas.
Um dos elementos mais inovadores do projeto foi a cobertura das plataformas. Construída em concreto armado e inspirada nas estruturas utilizadas em pontes, a solução arquitetônica era considerada revolucionária para a época. O sistema foi pioneiro no Brasil para esse tipo de aplicação, que ainda utilizava estrutura de ferro para esse tipo de construção, transformando a estação em referência nacional de engenharia e arquitetura ferroviária.
Além da imponência visual, o prédio reunia tecnologias avançadas para o período. Com mais de 10 mil metros quadrados de área construída, possuía 54 aparelhos telefônicos automáticos (um dos sistemas mais modernos da região) e passagens subterrâneas ligando as plataformas de embarque e desembarque destinadas a proporcionar mais conforto e segurança aos passageiros.
A relevância da Noroeste do Brasil para os planos de integração nacional também ficou evidente com a visita do presidente Getúlio Vargas às obras da estação, em 20 de julho de 1938. Foi a primeira visita de Vargas ao Estado de São Paulo após a Revolução Constitucionalista de 1932.
De acordo com o historiador Alex Sanches, a Estação Central foi concluída em setembro de 1939, período que coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial. Nas décadas seguintes, tornou-se um dos principais entroncamentos ferroviários do país, chegando a receber cerca de 26 trens de passageiros por dia nos anos 1950.
Com a gradual redução dos serviços ferroviários a partir da década de 1970 e a extinção dos trens de passageiros nos anos 1990, o movimento da estação diminuiu até sua desativação. Em 1999, a administração da Concessionária Ferroviária deixou o prédio.
Reconhecendo sua relevância histórica, arquitetônica e cultural, o complexo ferroviário de Bauru foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) em 2018. O conjunto inclui a Estação Central, oficinas, escritórios, vilas ferroviárias e remanescentes das antigas instalações da NOB, Sorocabana e Paulista.
Atualmente, a Prefeitura de Bauru desenvolve estudos para a revitalização do edifício, com a proposta de transformá-lo na futura sede do Centro Administrativo Municipal, preservando um dos mais importantes patrimônios ferroviários do Brasil.