OPINIÃO

A Guerra Civil dentro das palavras

Por Wellington Anselmo Martins | da Redação
| Tempo de leitura: 2 min

O dicionário parece pacífico: uma palavra, depois suas definições bem numeradas (sentido 1, sentido 2, sentido 3...). Mas a vida social raramente é tão organizada assim.

Uma pessoa real fala usando o primeiro sentido, mas outra escuta pela segunda opção semântica. Um fala um, outro escuta dois.

A palavra é a mesma. Mas o entendimento já se perdeu no caminho. Muitas discussões começam e se perpetuam assim: não com uma discordância realista, mas com um desencontro invisível de diversidade de significados.

Em termos consagrados habermasianos, a linguagem não serve apenas para transmitir informações; a linguagem é o meio pelo qual buscamos entendimento. Quando alguém fala seriamente, levanta pretensões de validade: quer ser compreendido, quer dizer algo verdadeiro, correto, sincero. Mas, se os interlocutores não compartilham o sentido das palavras, a comunicação sofre uma fratura perigosa.

O debate continua na superfície, enquanto, no fundo, cada um está argumentando dentro de um dicionário mental muito diferente, às vezes inclusive fechado em bolhas ideológicas

Isso é especialmente grave na esfera pública, no debate público em democracias. Palavras como liberdade, democracia, conservador, progresso, ciência, educação, esquerda e direita possuem várias camadas possíveis.

Um sujeito por exemplo diz "liberdade" pensando em dignidade, emancipação e autonomia; mas o outro escuta "licença individual sem responsabilidade"; e outro ainda interpreta de modo extremo como ameaça à ordem. Assim, conceitos que deveriam abrir o diálogo tornam-se cadeias de confusão.

A linguagem, que poderia construir pontes de debate crítico, vira um labirinto de ignorância e até de preconceitos ideológicos.

Por isso, antes de perguntar "você concorda ou discorda?", devíamos perguntar: "em que sentido você está usando essa palavra?".

Não raro, a própria pessoa, seja doutora ou analfabeta, não sabe ou não se lembra de definições ou conceitos profundos. Por isso aquela pequena pergunta tem força democrática e científica. Ela ajuda a limpar o terreno do debate, a reconstruir as condições do entendimento e impedir que a razão pública seja sequestrada por mal-entendidos, superficialidade e extremismo.

Em uma sociedade democrática, a qualidade do debate depende da qualidade do pensamento. Pensar bem começa por ouvir bem, e ouvir bem é perceber que, muitas vezes, a palavra que o outro disse não é exatamente a palavra que nós escutamos.

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