Interromper e recomeçar o uso de análogos de GLP-1, classe de medicamentos usada para diabetes e obesidade conhecida como "canetas emagrecedoras", pode reduzir a eficácia do remédio. É o que aponta um novo estudo conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina Perelman, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, publicado na revista científica "Journal of Clinical Investigation Insight".
O trabalho, feito com camundongos com sobrepeso, mostrou que, cada vez que os animais tinham o tratamento interrompido e reiniciado, eles perdiam menos peso em comparação com a redução inicial. Para Thomas H. Leung, autor do estudo, os resultados indicam que a eficácia dos medicamentos "pode depender da consistência".
"Iniciar o GLP-1 pode ser uma daquelas decisões que (...) exigem um compromisso de longo prazo, e pode não ser a melhor opção para pessoas que têm dificuldade em tomar uma medicação diariamente ou semanalmente", disse o autor em comunicado.
Peso volta rapidamente
O pesquisador afirma que cerca de metade dos usuários que iniciam um tratamento o interrompe em até dois anos, e que muitos retomam o uso depois. Essa tendência levou os cientistas a estudarem se isso poderia gerar um efeito na resposta do organismo.
Os cientistas americanos estudaram dois grupos de camundongos com sobrepeso ao longo de quatro meses. O primeiro recebeu semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, de forma contínua. Já o segundo passou por três ciclos de interromper e recomeçar o medicamento a cada duas semanas durante os primeiros dois meses. Depois, também fez o uso contínuo.
Os pesquisadores observaram que o segundo grupo recuperou o peso perdido rapidamente em cada duas semanas sem o tratamento. Além disso, quando o medicamento era reiniciado, os animais não conseguiam retornar totalmente ao peso anterior. Mesmo após 62 dias de uso contínuo ao fim do estudo, o grupo permaneceu com um peso 20% maior do que o de uso contínuo.
Menos massa muscular e mais gordura

Os responsáveis pelo estudo afirmam que esse comportamento não é algo incomum entre os remédios. O minoxidil, por exemplo, muito usado para estimular o crescimento capilar, também apresenta resultados melhores quando usado de forma contínua. Para os especialistas, os análogos de GLP-1 podem se encaixar na mesma categoria.
SINAIS BIOLÓGICOS
Os cientistas sugerem ainda motivos que levam a essa "perda de eficácia". Entre eles, citam que a perda de peso com os remédios geralmente consiste em 40% músculo e 60% gordura. No entanto, quando se interrompe o medicamento, o indivíduo costuma recuperar o peso, só que quase que exclusivamente gordura. Dessa forma, ao retomar o tratamento depois, a proporção do corpo já é diferente.
"O corpo parece receber um sinal biológico de que não pode se dar ao luxo de perder mais massa muscular. Uma vez que essa porcentagem de músculo atinge um ponto baixo, o corpo pode resistir a novas perdas de peso para se proteger", avalia Leung.
Principais consequências

Agravamento e recaída: Doenças crônicas (como hipertensão ou diabetes) podem piorar rapidamente, resultando em complicações graves ou até morte.
Síndrome de descontinuação: Parar de tomar antidepressivos ou ansiolíticos de uma vez causa tontura, enjoo, ansiedade, insônia e irritabilidade.
Resistência bacteriana: Interromper antibióticos antes do tempo permite que bactérias sobrevivam e se tornem mais fortes, dificultando futuras infecções.
Efeito rebote: Em psiquiatria, a interrupção pode causar uma exacerbação dos sintomas que estavam sendo tratados.
Perda de eficácia: A interrupção antes da adaptação do organismo (comum com antidepressivos) faz com que o paciente perca o benefício terapêutico.