Bom tratamento de canal é aquele que o material obturador usado se adapte e interaja com suas paredes, fechando todos os espaços. As paredes devem ser preparadas por substâncias irrigadoras, desinfetantes e bioativas para limpar e regularizá-las. No entanto, em 10% a 50% da superfície do canal, pode se não ter acesso às paredes principalmente, em canais ovais e canais achatados.
A superfície interna do dente, ou canal, tem paredes muito irregulares. Se tirar a polpa, o tecido mole, e deixar só a parte mineralizada, a superfície interna do canal tem numerosas estruturas esféricas mineralizadas parcialmente ou totalmente aderidas, e até soltas.
As células da polpa chamadas odontoblastos depositam um gel colagênico conhecido como matriz dentinária não mineralizada como uma camada de 10 a 30 micrometro. Nesta camada, também nominada de pré-dentina, estas mesmas células jogam enzimas que atraem e criam condições para os sais minerais se depositarem concentricamente um em torno do outro, formando estruturas esféricas que recebem o nome de “calcosferitos”. Eles aumentam de tamanho e uma se encontra com a outra, unindo-se e formando a dentina como um tecido regular. Isto mesmo, a dentina é mineralizada por áreas esféricas que se unem.
Novas camadas são depositadas de matriz e o processo de mineralização se continua para formar o dente ou manter sua função no lugar. Todo o processo é lento e simultâneo. Quando se faz o canal, de um modo geral, a indicação foi porque se teve uma cárie ou exposição bucal com contaminação da polpa que forma a dentina e que está ao seu redor.
As bactérias na polpa e a inflamação induzida gera enzimas que dissolvem a pré-dentina não mineralizada e deixa a parte mineralizada intacta, inclusive os calcosferitos como nas imagens. Neste processo as bactérias tomam conta da superfície irregular, entrando por entre as esferas e também nos túbulos dentinários.
ÁREAS INTOCÁVEIS?
Depois da instalação de bactérias isoladas ou aglomeradas nestas estruturas esféricas e tubulares, os/as endodontistas com tecnologia, instrumentos e substâncias terão que retirar ou isolar estas bactérias para que não proliferem e saiam pelos ápices das raízes no forame em que a polpa se comunicava com o corpo.
A técnica endodôntica tende a regularizar a superfície, tirando as irregularidades e expondo a entrada dos túbulos dentinários, para que os medicamentos e outros materiais se adaptem à parede do canal. O canal quando fechado, acaba deixando algumas bactérias ficarem nos túbulos, mas isoladas e assim não fazem mal ao organismo.
Mas, temos uma problema que realmente é muito difícil: os instrumentos e medicamentos que preparam a parede canal atuam em toda a superfície interna do canal ou tem algum ponto, curva ou irregularidade, onde isto podem não acontecer? Haverá alguns pontos recônditos, em que as bactérias e aglomerados microbianos irão permanecer?
Sim, pode acontecer e é por isto que a tecnologia tenta usar materiais mais flexíveis e rotatórios, que se deformem para chegar a estes pontos recônditos. Também se usa medicamentos e produtos que se escoam mais, que se infiltrem nestas irregularidades, ou que sejam antimicrobianos.
A endodontia, a especialidade e ciência que estuda e pesquisa os tratamentos de canais, progride a cada dia para reduzir a quantidade/percentual de superfície que quando intocada, guarda bactérias depois da obturação de canal.
REFLEXÃO FINAL
O progresso foi muito grande nos últimos 26 anos, mas ainda precisamos chegar ao utópico 100% de superfície preparada para um canal ser obturado. Reduzir cada vez mais este número de superfície interna irregular não tratada, mostra o tão difícil é fazer um tratamento de canal, o que deve ser muito valorizado. A cada ano, a taxa de insucesso no tratamento de canal diminui à medida em que se aumenta as pesquisas e evoluções tecnológicas. A ciência continua linda e maravilhosa!