COLUNISTA

Sabe-se a causa, mas câncer bucal não diminui

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

Abri a conferência distribuindo despretensiosamente balas de morango que deixaram os hálitos doces. Depois dos procedimentos de abertura do evento, comecei perguntando: - Vocês sabem onde são fabricados estas balas que habitaram suas bocas por 5 minutos? Quais são os componentes que contêm? E qual seria o prazo de validade para ser consumido? Teria morango na bala?

O câncer bucal deveria ser abolido, pois:
1º. Temos acessibilidade a esta cavidade, o que oportuniza o autoexame bucal periódico. Mas, os mais matutos desconfiam de tudo, tem medo de abrir a própria boca no espelho para um autoexame. Muitas pessoas não gostam nem de visualizar a própria língua, o local onde mais se tem câncer na boca. Matuto é um termo brasileiro que descreve as pessoas caracterizadas pela simplicidade, hábitos da roça e por serem desconfiadas. 
2º. Se tem a oportunidade de exames mais minuciosos pela visita anual a um profissional especialista em boca, para inspecionar os dentes, mucosa e maxilares. A boca é a porta de entrada do corpo.
3º. As causas do câncer bucal são conhecidas e não tem nada a ver com hereditariedade. As principais causas são: a) o uso de qualquer forma de tabaco, inclusive o cigarro eletrônico, b) o uso de qualquer forma de álcool, desde o charmoso vinho até a poderosa cachaça. Isto independe da dose e da frequência com que o álcool seja ingerido, c) Os raios solares, especialmente no lábio inferior, d) o vírus HPV, especialmente no câncer de língua e orofaringe.
4º. Na metade dos casos, o câncer na mucosa bucal manda sinais antes de aparecer, sinais em forma de manchas e placas brancas e ou manchas vermelhas, conhecidas cientificamente como leucoplasias e eritroplasias.
5º. Na boca passam numerosas substâncias cancerígenas como conservantes, aromatizantes, agrotóxicos e hidrocarbonetos, Elas estão nos alimentos, especialmente os ultraprocessados, dentifrícios, antissépticos, xaropes, medicamentos cosméticos e no ar que respiramos e nos líquidos que bebemos, incluindo a água. 

CARCINOGÊNESE QUÍMICA

O processo de formação de um câncer quimicamente induzido, como é na grande maioria dos casos na boca, se chama carcinogênese química. E, como todo curioso, para ensinar sobre o assunto me aprofundo e quase sempre pesquiso-o gerando trabalhos publicados e teses defendidas.
Os produtos químicos passam repetidamente na mucosa bucal que tem uma proteção fisicamente muito sutil, pois diferente da pele, ela não tem uma camada espessa superficial de queratina, uma proteína de proteção físico-química. Queratina na mucosa bucal só tem no dorso da língua, no palato duro e na gengiva inserida. As demais áreas bucais, as células estão expostas diretamente no meio bucal.
Substâncias químicas modificam o DNA das células expostas e elas estimulam os três mecanismos de defesa para corrigi-lo. Mas todos os dias, isto ocorre com os genes, porém os mecanismos podem falhar e iniciar um processo neoplásico maligno, que na mucosa bucal se chama Carcinoma Espinocelular. 
Uma substância química pode potencializar o efeito de outra e ou de si mesmo, neste processo de iniciação e promoção da carcinogênese química. Algumas serão chamadas de iniciadoras e outras, de promotoras. O álcool além de iniciador, é um potente promotor.

REFLEXÃO FINAL

Se você tem idade longa e submeteu-se aos agentes causadores de câncer bucal, mas não tem nenhuma lesão na mucosa bucal, agradeça aos “céus” e aos “seus” mecanismos de defesa, que foram em todas estas décadas testados e eficientes todos os dias. Meus pais diziam que ao rezar e pedir, sempre dê o nome e o endereço completo do beneficiado. Seguindo esta lição, reze e agradeça aos mecanismos da apoptose, aos efeitos da células NK ou “natural killer” e à competência das células imunológicas como os linfócitos, macrófagos e plasmócitos! E eu direi: amém!
PS: Maio vermelho é o mês da prevenção do câncer bucal.

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