OPINIÃO

A corrida contra a fraude começa (muito) antes da IA

Por Paulo Carvalho | O autor é Diretor de Operações da Digisac, da Ikatec
| Tempo de leitura: 2 min

O alerta de especialistas para fraudes com inteligência artificial e os desafios da perícia digital, nos faz parar em um ponto que pouca gente enxerga. Basicamente, todo mundo corre atrás da tecnologia nova, ou seja, o algoritmo que detecta, o modelo preditivo que antecipa, mas esquece uma camada mais chata, que é a estrutura dos dados e do processo antes de qualquer automação.

Na rotina operacional aqui na Digisac, a gente vê um padrão claro. Muita empresa chega com o discurso de que quer IA para “evitar fraudes” ou “qualificar atendimento”. Só que quando a gente abre o capô, o que encontra é base de dados fragmentada, fluxos de aprovação que dependem de e-mail pessoal, e zero rastreabilidade sobre quem fez o quê na conversa.

É curioso observar que, nesse cenário, a própria ferramenta de IA vira um risco. Porque se a operação já tem falhas na origem, o algoritmo só vai acelerar o erro. Ou pior: vai criar um ruído tão grande que ninguém consegue distinguir o que é fraude do que é só desorganização.

Para investigar uma fraude, você precisa de rastro limpo. Precisa saber o que é dado original e o que foi manipulado. Agora transporta isso para o dia a dia de um time de suporte ou de vendas que usa WhatsApp como canal principal. Sem governança, qualquer conversa vira um ponto cego. E um ponto cego é, para quem quer fraudar, um convite.

A grande sacada, e onde eu costumo insistir nas conversas com líderes de operação, é que processos inteligentes não existem sem processos organizados. Parece óbvio, mas na prática é onde a maioria tropeça. Você precisa ter, antes de qualquer bot ou assistente virtual, o desenho claro de quem pode acessar o quê, como as conversas são registradas, qual o tempo de resposta esperado e como se prova a autenticidade de uma interação.

Quando a base está sólida, a IA vira aliada. O modelo consegue aprender com contexto limpo, consegue identificar padrões de fraude com precisão, e a perícia digital, se um dia for necessária, não vê um amontoado de dados perdidos. Vê trilha.

Pode parecer básico, mas o que a gente percebe é que o mercado frequentemente pula essa etapa de estruturação. Vai direto para o brilho da automação. E aí, quando uma fraude acontece ou um cliente é prejudicado por uma falha de processo, a culpa cai na tecnologia, não no desenho operacional.

Na Digisac, a gente opera com um princípio meio chato de tão óbvio: confiabilidade não se constrói com promessa de software, se constrói com execução disciplinada. Isso significa ter cada etapa mapeada, cada dado validado, cada permissão auditável. Só depois a gente escala, só depois a gente aplica IA.

Porque, no fim, atendimento de qualidade e segurança de verdade não nascem no modelo de linguagem. Nasce na operação bem estruturada.

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