OPINIÃO

Sombras de ressentimento diante do ring light

Por Wellington Anselmo Martins | O autor é mestre em Filosofia (Unesp)
| Tempo de leitura: 2 min

Em “Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera” (Netflix, 2026), a internet é apresentada menos como praça pública do que como algum tipo de academia de afetos feridos: diante da câmera, influenciadores, às vezes com traumáticas histórias de vida, transformam insegurança em pose de força.

O documentário mostra que o que se vende ali é, para além de simploriamente uma ideia de homem, uma licença para converter frustração privada em lucrativa — e ideológica — superioridade pública. Esse ponto é inquietante. Essa “machosfera” fala ininterruptamente de força e até de coragem, enquanto parece viver de fragilidades e imaturidades ainda mal elaboradas.

Sua crença é simples: quando o mundo não me reconhece de modo espetacular, o problema é o mundo: a igualdade, a escola, a crítica, a opinião alheia, algum “ismo” dos outros, as mulheres.

Como um avião que cai ao som de música triunfal, tal crença oferece ao sujeito a sensação de crescimento enquanto o rebaixa eticamente. Não cura o desamparo e queda; administra-o cinicamente como negócio.

Por isso o fenômeno parece exceder muito o tema da masculinidade. Estamos diante de alguma nova pedagogia social da desresponsabilização. Em vez de ampliar a linguagem, a escuta e a autocrítica, essa (des)educação treina para a suspeita mais paranoica, caricatural e revanchista. O outro deixa de ser interlocutor e vira obstáculo, inimigo; a conversa deixa de almejar a verdade e passa a ser medida pelo impacto, likes e lucro.

A “machosfera” apresentada é a terra onde o argumento real perde valor — e o desempenho, mesmo que falso e editado, ganha mercado.

Portanto, o dano desses discursos não termina nas relações entre homens e mulheres. As consequências da desresponsabilização digital atingem o coração da vida comum, porque acostumam a nova geração a confundir visibilidade e fama com razão, audiência com virtude, domínio violento com dignidade.

No mais íntimo, toda democracia madura depende da difícil arte de transformar feridas em palavras partilháveis.

Mas a “machosfera” retratada por Theroux parece fazer o contrário: transforma palavras em armas exatamente para proteger feridas. E uma sociedade começa a adoecer quando antigas humilhações encontram microfone antes de encontrarem novos pensamentos.

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