COLUNISTA

Ibe 64 anos: fidelidade na história da igreja

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Reduzir a Igreja a um fenômeno recente não é apenas um erro histórico; é uma leitura pobre das Escrituras e da própria ação de Deus no tempo. Antes que Lutero ou Calvino surgissem, a Igreja já carregava séculos de testemunho, sofrimento, formulação doutrinária e avanço missionário. Ainda assim a sua origem não pode ser explicada apenas pela cronologia visível da história cristã. Quando a Bíblia é lida com atenção, percebe-se que a Igreja não começa simplesmente em Atos, mas aparece, em germe e promessa, desde os primeiros atos redentores de Deus. Ela não surge, de início, como instituição plenamente revelada, mas como povo chamado, preservado e reunido pelo Senhor ao longo das eras.

Por isso, Cristo não veio fundar uma religião sem raízes, como se a história anterior tivesse sido anulada. Nele, Deus levou à plenitude aquilo que já vinha desenhando desde o Éden por meio de promessas, alianças e figuras. A Igreja do Novo Testamento não é uma invenção desconectada do Antigo Testamento, mas a forma amadurecida e plenamente iluminada do povo da aliança. O que antes estava em sombra agora brilha em clareza; o que antes era promessa agora se revela em cumprimento; o que antes era preparação agora encontra, em Jesus, seu centro vivo, definitivo e glorioso.

Também por isso é equivocada a ideia de que a Igreja tenha nascido do fracasso emocional de discípulos desiludidos. Essa interpretação pode soar sofisticada em ambientes céticos, mas não resiste nem à história nem ao testemunho apostólico. A Igreja não nasceu do luto, mas da ressurreição. Os apóstolos não saíram pelo mundo tentando conservar a memória de um mestre morto, vencido; saíram anunciando, com coragem e convicção que Jesus Cristo venceu a morte. A cruz não foi o colapso de um plano, mas o lugar onde o pecado foi julgado no Cordeiro de Deus. E o domingo da ressurreição não foi simples consolo para corações abatidos, mas a proclamação pública de que o Crucificado vive, reina e triunfa. A Igreja nasceu porque o Rei ressuscitado a convocou.

A transição de Israel para a Igreja deve ser compreendida como desdobramento do mesmo plano redentor. Israel viveu sob a pedagogia da Lei, em contornos nacionais e cerimoniais que serviam ao desenvolvimento da promessa. Tudo ali apontava para algo maior. Quando Cristo veio e consumou sua obra, aquilo que era figura alcançou sua realidade plena. Em Atos 2, no Pentecostes, não vemos o começo absoluto do povo de Deus, mas a expansão mundial da redenção consumada. O Evangelho rompe fronteiras, alcança línguas e nações, e a presença divina já não se limita a um centro geográfico, mas se manifesta a partir do trono do Cristo exaltado, Senhor da terra inteira.

Nesse cenário, a Igreja se mostra como obra sólida do próprio Deus. Ela não se sustenta em carisma humano, prestígio institucional ou força cultural. Seu fundamento é Cristo, a pedra angular, anunciado pelos apóstolos e profetas. Chamar a Igreja de apostólica é reconhecer sua submissão ao Evangelho que eles receberam e transmitiram: Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou conforme as Escrituras. É nessa verdade que a Igreja encontra sua autoridade, sua identidade e sua vida. Onde esse Evangelho permanece central, ali a Igreja existe em sua autenticidade.

A própria história confirma isso. Desde os dias de Noé, quando a linhagem da fé parecia mínima, até os dias de Elias, quando o remanescente parecia escondido, Deus sempre preservou seu povo. Ao longo dos séculos, perseguições, heresias, impérios e crises se levantaram, mas a Igreja não foi destruída, porque seu Senhor jamais a abandonou. Cristo a corrige, disciplina, purifica, protege e sustenta. Por isso, Apocalipse apresenta a multidão incontável diante do trono: ali aparece, em plenitude, o resultado da fidelidade divina na história.

É com essa consciência que celebramos os 64 anos da IBE. Damos graças ao Senhor, cuja misericórdia sustentou sua Igreja ao longo do tempo e a fez florescer também aqui, em Bauru no Estoril, como expressão viva de sua graça fiel. Celebrar essa trajetória é reconhecer que a beleza da Igreja está em sua permanência no Evangelho. A presença dos irmãos, amigos, dos Vencedores por Cristo e dos pastores Carlos Water e Edson Quinezi torna este momento ainda mais rico em comunhão e gratidão. No centro de tudo, permanece a mesma verdade: Cristo segue chamando pecadores, edificando seu povo, governando sua Igreja e conduzindo a história ao seu desfecho glorioso. Parabéns, IBE. Que essa celebração renove a fé da igreja, fortaleça sua esperança, aprofunde sua fidelidade bíblica e amplie sua alegria no Senhor ressuscitado e sempre.

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