O gesto de assentar palavras no papel se concretiza em 'UNS poemas de geraldo bergamo', obra do professor aposentado de matemática e grande militante da cultura e da política, que será lançada dia 24 de abril, a partir das 19h30, no Espaço Mireveja, na rua Maria Cecília de Oliveira Maciel, 1-13, em Bauru.
Depois de mais de 50 anos de escrita poética, Geraldo Bergamo reúne textos antes compartilhados exclusivamente em seu Facebook que, pela primeira vez, são publicados em livro impresso, e-book e audiobook.
Sem orelhas explicativas ou textos de apresentação, a obra aposta na força da própria linguagem, reforçando a ideia de que é a palavra, e apenas ela, que sustenta o livro.
A escrita de Bergamo mergulha na poesia contemporânea, mas escapa a classificações rígidas, na medida que expõe suas influências modernistas, regionalistas e até mesmo da métrica dos sonetos, presente em dois poemas.
Com trajetória consolidada na educação, Bergamo sempre manteve presença ativa na vida pública e política. Na década de 1980, ao lado de quatro amigos, publicou a revista mimeografada Mutirão, dedicada à literatura.
Na terceira edição, ela foi recolhida das bancas pela Polícia Federal, episódio que o autor rememora como retrato do tempo. Mesmo sob o peso da ditadura, o grupo buscou esclarecimentos diretamente na delegacia.
"O chefe da PF tinha idade próxima à nossa e nos disse que ele próprio apreciava a revista, mas havia recebido uma denúncia", conta o autor de UNS.
Décadas depois, foi também a recepção calorosa de seus poemas nas redes sociais que reacendeu o impulso criativo, conduzindo, de forma quase natural, à organização deste livro.
Como o próprio autor, os versos ocuparam o espaço digital de maneira despretensiosa, encontrando ali interlocutores.
O livro é uma realização da Mireveja, Prefeitura Municipal de Bauru, Secretaria de Cultura, Política Nacional de Fomento à Cultura - Aldir Blanc, Sistema Nacional de Cultura, Ministério da Cultura e Governo do Brasil.
Na orelha do livro
Seus versos se firmam no vocabulário preciso e em imagens que nascem do cotidiano, atravessadas por um olhar social, irônico e existencial, dimensões que encontram lastro em sua reconhecida militância política. Bergamo também discute o próprio fazer poético, apontando seus caminhos e referências, como no poema abaixo, que ocupa a orelha do livro:
por vezes quisera escrever
um poema
que prendesse a atenção
e doesse
como quem risca um fósforo
olha fixamente para a chama
que o consome
e deixa que os dedos
queimem
não que isso mudasse
a falta de sentido
da vida
apenas seria um poema
perdido
num canto escuro
à espera de um fósforo
de um clarão
de uma dor
Após parar de trabalhar...
"Foi depois da aposentadoria, há cerca de oito anos, após uma cirurgia de catarata, que comecei a escrever e a publicar", relata Bergamo, cuja escrita carrega o lastro dos poetas que o acompanharam ao longo da vida. Após mais de meio século de leitura e convivência com a poesia, o autor se permite agora habitar o espaço do livro. Nesse gesto, há ainda uma dimensão de partilha.
queria deixar aos amigos
meu coração
meu coração bêbado de suas vozes
a me dizer do mundo
queria deixar aos amigos
meu coração
meu coração tão frágil
mais frágil que uma esperança
meu coração a necessitar
de seus cuidados
queria deixar meu coração
aos meus amigos
Para as netas...
Entre permanências e perdas, os poemas lidam com o tempo, a linguagem e com a delicadeza quase invisível do sentir. Ao final, dois poemas dedicados às netas revelam uma inflexão afetiva que amplia o alcance da obra, a exemplo do trecho abaixo.
quem foi
que pintou o céu
de azul
quem foi que pintou?
foi a Lua
neném
foi a Lua
com lápis
de riscar caminho
e a porta
que o Sol fechou
quem foi
que pôs
o pijama
na zebra
quem foi que pôs?
O autor
Geraldo Bergamo é professor aposentado de matemática da Unesp de Bauru e ex-secretário municipal de Cultura. Com trajetória consolidada na área de ensino-aprendizagem e atuação na vida pública e cultural, construiu ao longo de décadas uma presença marcada pela reflexão crítica.
Leitor assíduo de poesia por mais de meio século, transitou entre a lógica dos teoremas e a escuta da linguagem poética. Acostumado, como ele próprio ironiza, a lidar com demonstrações já demonstradas, decidiu experimentar a escrita como quem se aproxima da dicção de poetas que admira. UNS - poemas é seu primeiro livro, fruto de uma escrita antes compartilhada apenas nas redes sociais.
SERVIÇO
Lançamento do livro
Uns - poemas de geraldo bergamo
Dia 24 de abril de 2026
Horário: 19h30
Local: Espaço Mireveja
Rua Maria Cecília de Oliveira Maciel, 1-13
Entrada Franca