OPINIÃO

O Mercado da Desfaçatez Política

Por Tatiana Calmon | O autor é jornalista e colaboradora de Opinião
| Tempo de leitura: 2 min

O sistema político brasileiro opera hoje sob um tripé que corrói a democracia por dentro: a janela partidária, o fundo eleitoral e as emendas impositivas. Juntas, essas ferramentas institucionalizam o fisiologismo. O que deveria ser um debate de ideias virou um balcão de negócios escancarado, com números que dão a dimensão exata do estrago.

A janela partidária que se encerrou neste dia 3 de abril é o prêmio para a traição. Mais de 100 deputados federais trocaram de legenda nos últimos trinta dias, o que representa quase 20% da Câmara. O mandato pertence ao programa que o eleitor escolheu, mas a lei permite que o parlamentar rasgue esse contrato por mera conveniência de poder. Esse nomadismo esvazia as legendas e transforma o Congresso em um mercado de passes onde a coerência é o que menos importa.

Os números revelam quem mais lucrou com o jogo das cadeiras. O PL consolidou sua hegemonia ao receber cerca de 20 novos deputados, enquanto o PSD e o Republicanos também inflaram suas bancadas. No sentido oposto, o União Brasil foi o grande derrotado, registrando a saída de pelo menos 28 parlamentares. Nomes conhecidos protagonizaram essa dança: Rosângela Moro e Sargento Fahur migraram para o PL, Kim Kataguiri foi para o recém-criado Missão e André Janones buscou abrigo na Rede. Até no Senado, onde a janela não é obrigatória, Sergio Moro deixou o União rumo ao PL, provando que a estratégia eleitoral atropela qualquer fidelidade.

O fundo partidário bilionário criou castas. Em vez de buscarem o apoio da sociedade e a força da militância, os partidos tornaram-se empresas dependentes do Estado. Siglas de conveniência inflam suas bancadas apenas de olho nas fatias maiores do bolo financeiro. Sem esse oxigênio forçado, as legendas de aluguel desapareceriam, restando apenas quem tem raiz social e propósito real.

As emendas impositivas completam o ciclo ao entregarem o cofre da União nas mãos de quem deveria apenas fiscalizá-lo. Ao controlar bilhões do orçamento para obras paroquiais, o parlamentar vira um despachante de luxo. Esse modelo pavimenta a corrupção porque substitui o planejamento técnico nacional pela troca de favores eleitorais em bases locais, garantindo a reeleição de quem detém a chave do cofre.

A política brasileira sobreviveu antes dessas muletas e precisa voltar a caminhar sem elas. Acabar com esse tripé é a única forma de devolver ao cidadão o valor do seu voto. Sem o dinheiro fácil e sem a licença para a infidelidade, a política deixará de ser um negócio lucrativo para voltar a ser o campo do convencimento e do caráter.

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