Olhou aquilo tudo. Aquele ritual da rotina religiosa cultivada na repetição infinda. A fixação da crença, da fé pela renitente rotina programada. A igreja repleta. Missa de ramos. A celebração se fazia em rememoração à entrada de Cristo, montado num jumento, em Jerusalém. Daí se desencadeia todo o processo convencional do cristianismo católico da recapitulação do padecimento, morte e ressureição de Cristo. É a denominada Semana Santa, cujo ápice é a sexta-feira da paixão e o desfecho, a Páscoa pela ressureição.
A mulher estava semi-imobilizada, impedida de dirigir. Passara, então, a conduzi-la onde era necessário que ela fosse. Os rituais da Semana Santa a ela, imprescindíveis. Ia, pois, com ela. Ficava com ela. Há muito ele cortara o hábito de ir à missa. Claro, sob protesto veemente da mulher. Decisão assumida então ao considerar que não dava mais para fechar os olhos às severas contradições da “casa de Cristo” que, no dia a dia miúdo de seu funcionamento, fazia vistas grossas aos preceitos estabelecidos por Ele. Desvencilhar-se dos bens materiais e monetários excessivos às necessidades básicas; riqueza, suntuosidades, perjúrios, preconceitos.
Assim atesta sua cartilha, os evangelhos. Já demonstrava e pregava Ele em suas andanças e ações aos que os seguiram e o seguiriam por todos os séculos dos séculos. Era já extensivamente a todas essas coisas a metáfora tomai, comei e fazei isso em minha memória. E na ceia estabelecida como santa, tornara a fazê-lo. Era a reiteração da metáfora com que rubricara a repartição dos pães e peixes. Não dava mais para fazer de conta que nada disso o inquietava. Não dava. Não, não era nenhum santo. Mas aquilo era demais pra ele. Ficou sendo cristão à sua maneira.
À porta de entrada da igreja já estava montado o cortejo a se dirigir ao altar. O sacerdote em trajes para a cerimônia. Também seus auxiliares acompanhantes. Ele tinha um pequeno ramo de coqueiro à mão. A grande maioria dos fiéis também portava o seu.
Iam começar as cerimônias da Semana Santa que, sim, punha em estado de devoção de entrega ao “amor de cristo” as muito ingênuas e fervorosas criaturas cristãs. E as tantas outras hipócritas que assiduamente compareciam, ainda que suspeitassem (e não se descarte levarem no fundo dos bolsos o contido sentimento de descrença) daquilo tudo. Ele ali ao lado dela, não com má vontade, mas satisfeito por sinceramente compreender que a deixava contente. Ela bem sabia que estava por ela (e, sim, reverente a Cristo de cuja história evangélica também gostava bastante). O pensamento parece uma coisa à toa, mas como a gente voa, quando começa a pensar.
Olha o padre com o ramo na mão, tá chamando pra orar. Entram na igreja triunfal. Os fiéis põem-se de pé em sinal de respeito ao Cristo que simbolicamente se vai conduzindo até o altar. Em uníssono um só canto açambarca o templo. É o prenúncio da vida, paixão e morte que começa a ser rememorado naquela casa de Jesus. O pensamento parece uma coisa à toa, mas como a gente voa, quando começa pensar.
Ainda menino de pé no chão, mal sabia o que tudo aquilo significava. A mãe punha-lhe roupa de sair. Tomava-lhe da mão e lá iam. Vestia um véu preto. A imensa procissão começava a percorrer os muitos quarteirões em direção à Paróquia de Santa Luzia. Os homens carregavam andores de santos. No centro, o andor de Santa Luzia, depois o de Nossa Senhora, a mãe de Deus, e, coberto por um pálio que outros homens conduzia, ia o andor em que jazia o Cristo morto.
À frente, todo garboso, empertigado, seu Ernesto, o zelador do Grupo Escolar Victor Sansoni, portava um enorme e dourado estandarte. Era o puxador dos cantos: “Mãezinha do Céu, eu não sei rezar, só sei te dizer, quero te amar...” “Coração Santo oração santo, Tu reinarás/ Tu, nosso encanto sempre serás/ Coração santo, Tu reinarás...”.
A cada esquina uma seção da Via-Sacra. Então, em cada uma delas, uma mulher vestida de preto, de véu preto, subia num banquinho, que seu Joaquim da farmácia carregava. A multidão punha-se de joelhos. E ela passava a cantar um canto muito triste, enquanto ia desenrolando um pano branco; a cabeça de Jesus com a coroa de espinho, o rosto escorrido de sangue. E o canto durava até que ela acabasse de enrolar novamente. Então, seu Ernesto iniciava um outro canto, puxando a procissão em frente.
Agora, ali. A mulher puxando-o ora para pôr-se de pé, ora, para ajoelhar, ora para se sentar. Já não se punha roupa de sair a tais cerimônias. Muitos homens, muitas mulheres de bermuda. Já não havia mais procissões imensas com o Senhor morto, a Verônica subindo ao banquinho a cada estação da Via-Sacra.
Agora, ali. O padre nos finalmentes da missa. Lá fora, a Rússia prossegue matando, aos milhares, gente ucraniana, sob o pretexto de a Ucrânia quer exercer seu direito de se filiar à Otan. Uma poderosa e criminosa facção política da palestina ceifou sorrateiramente centenas de judeus. Em revide, o governo de Israel não para mais de matar, às centenas de milhares, gente palestina.
Enquanto centenas e centenas de gente iraniana prostram-se em preces a seu Deus, o governo israelense e o Exterminador-presidente dos EUA, mancomunados, vão matando-os, pretextando que este país não pode ter a bomba fatal. Somente eles podem. Agora o padre manda-os irem em paz e que o Senhor os acompanhe.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta. Membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)