ARTIGO

Alerta: Burnout digital já causa internações 

Por Ayne Salviano | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min
Quando esse estímulo é retirado, algumas crianças apresentam reações comparáveis a quadros de abstinência comportamental
Quando esse estímulo é retirado, algumas crianças apresentam reações comparáveis a quadros de abstinência comportamental

Recentemente viralizou nas redes sociais a cena de uma criança, aparentemente entre 8 e 10 anos, em um intenso surto após ter o celular retirado pelos pais. O menino gritava, xingava e ameaçava enquanto quebrava objetos pela casa. O episódio foi filmado pelos próprios responsáveis, possivelmente com a intenção de mostrar a outras pessoas a realidade que enfrentavam ao aplicar um castigo envolvendo a retirada do aparelho.

A cena é ao mesmo tempo deprimente e assustadora. Deprimente porque revela um momento de grande fragilidade emocional da criança, exposta publicamente em uma situação de sofrimento. Assustadora porque a intensidade da crise chama atenção para um fenômeno cada vez mais discutido por especialistas: o impacto do uso excessivo de telas na saúde mental de crianças e adolescentes. Muitos profissionais relacionam comportamentos semelhantes ao que vem sendo chamado de burnout digital.

O burnout digital pode ser definido como um estado de exaustão mental, emocional e física provocado pelo uso excessivo e contínuo de tecnologias digitais, especialmente smartphones, redes sociais e jogos online. Diferente de um simples cansaço após horas diante de uma tela, trata-se de um quadro que pode envolver irritabilidade intensa, ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono, sensação constante de sobrecarga e incapacidade de se desconectar.

Pesquisas científicas recentes têm reforçado a preocupação com esse fenômeno. Estudos publicados em revistas internacionais de psicologia e psiquiatria indicam que o uso prolongado de telas está associado ao aumento de sintomas de ansiedade, depressão e problemas de atenção em jovens. Pesquisadores também observaram que o cérebro em desenvolvimento pode se tornar altamente sensível aos estímulos rápidos e recompensas imediatas proporcionadas por aplicativos, jogos e redes sociais. Quando esse estímulo é retirado, algumas crianças apresentam reações comparáveis a quadros de abstinência comportamental.

Diante desse cenário, diferentes países começaram a desenvolver estruturas especializadas para lidar com a dependência digital. Na Alemanha, por exemplo, hospitais e clínicas psiquiátricas passaram a oferecer programas específicos de tratamento para jovens com uso problemático de tecnologia. Em algumas dessas unidades, equipes multidisciplinares formadas por psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e educadores trabalham na chamada “reeducação digital”. Os pacientes participam de atividades simples, mas fundamentais para o desenvolvimento humano: conversar olhando nos olhos, praticar exercícios físicos, brincar ao ar livre, aprender técnicas de respiração e reconstruir rotinas sem o uso constante de telas.

Instituições semelhantes também existem em outros países. Clínicas especializadas em dependência de internet e jogos eletrônicos já funcionam na Coreia do Sul, na China e em partes dos Estados Unidos, refletindo a dimensão global do problema. Em alguns casos, jovens permanecem internados por semanas ou meses enquanto passam por programas estruturados de desintoxicação digital.

No Brasil, o tema ainda está em fase inicial de discussão científica e clínica. Pesquisadores de universidades e profissionais da psiquiatria infantil têm alertado para o crescimento do uso excessivo de telas entre crianças e adolescentes. Embora o país ainda não possua muitas clínicas especializadas exclusivamente em dependência digital, hospitais psiquiátricos e serviços de saúde mental já registram casos em que o uso descontrolado de tecnologia está associado a quadros de ansiedade, insônia, irritabilidade e dificuldades de socialização.

Especialistas em infância relatam que adolescentes em abstinência digital podem passar várias noites sem dormir, chorar intensamente, apresentar irritação extrema e grande dificuldade para interagir sem o apoio das telas. Durante o processo de recuperação, muitos precisam reaprender habilidades básicas de convivência. O assunto não é novo. Novo precisa ser o comportamento de pais, responsáveis e educadores diante do uso das tecnologias.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão educacional

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