Por vezes me perguntam e, talvez você também já tenha se perguntado, por que nós, professores, ainda não desistimos. Depois de quatro décadas em sala de aula, atravessando da educação infantil ao ensino superior, formando professores, errando, aprendendo, recomeçando… eu poderia dar muitas respostas. Mas nenhuma delas seria completa sem reconhecer o óbvio: não é fácil. Nunca foi. A escola muda menos do que poderia, as políticas nem sempre chegam aonde precisam, e o cotidiano, com suas urgências, por vezes nos cansa mais do que gostaríamos de admitir. Ainda assim, permanecemos.
Permanecemos porque sabemos, com uma convicção que não cabe em indicadores ou relatórios, que há algo profundamente transformador no encontro entre quem ensina e quem aprende. A ciência me ensinou muito sobre o cérebro, sobre emoções, sobre como aprendemos, mas foi a vida na escola que me mostrou que nenhum dado é maior do que o vínculo. É ele que sustenta o processo quando tudo o mais falha, que reabre caminhos quando a aprendizagem parece não acontecer, que devolve sentido quando o desânimo se aproxima.
Não ficamos por ingenuidade, nem por romantismo. Ficamos porque entendemos que educar é um ato de responsabilidade com o futuro, mas, sobretudo, um compromisso radical com o presente. É no agora, no olhar atento, na escuta verdadeira, na intervenção cuidadosa, que algo se move — às vezes silenciosamente, quase invisível, mas com potência suficiente para transformar trajetórias inteiras.
Ao longo desses anos, vi mudanças que nenhum currículo previa: alunos que não acreditavam em si e encontraram voz, histórias difíceis que ganharam novos rumos, professores que se descobriram capazes de ir além do que imaginavam. E talvez seja isso que nos sustenta: a consciência de que trabalhamos com o humano em sua forma mais sensível e, ao mesmo tempo, mais potente.
Hoje, como pai, avô e educador, talvez eu tenha ainda mais clareza: nós não desistimos porque, no fundo, escolhemos acreditar nas pessoas antes mesmo que elas consigam acreditar em si. E porque, apesar de tudo e talvez justamente por causa de tudo, ainda encontramos sentido no que fazemos. E, enquanto houver sentido, haverá permanência.