ENTRETENIMENTO

Pesquisa na região revela que 84% querem mais cultura

Por Wesley Pedrosa | da redação
| Tempo de leitura: 6 min
Agência Brasil
Pesquisa da Fundação Seade mostra menor presença em cinema, museus e bibliotecas, enquanto desejo por mais opções culturais segue alto na região
Pesquisa da Fundação Seade mostra menor presença em cinema, museus e bibliotecas, enquanto desejo por mais opções culturais segue alto na região

A região administrativa de Araçatuba aparece no novo levantamento da Fundação Seade, analisado pela Folha da Região, como um retrato claro de uma realidade vivida por boa parte do interior paulista: existe interesse por cultura, mas a oferta, o alcance e a frequência de uso dos serviços ainda estão abaixo do desejado pela população. Os dados, divulgados essa semana no estudo “SP Social – Cultura”, mostram que o acesso cultural continua desigual e mais restrito fora dos grandes centros.

Entre os indicadores analisados, um dos que mais chama atenção é a baixa ida ao cinema. Em 2025, apenas 26% da população da região de Araçatuba afirmou ter frequentado salas de cinema nos últimos 12 meses. O índice fica abaixo da média estadual, de 35%, e reforça a distância entre o interior e áreas mais estruturadas, como a Região Metropolitana de São Paulo, onde esse percentual chegou a 41%.

O dado ganha ainda mais peso quando se observa que o próprio estudo aponta o cinema como a atividade cultural que mais perdeu público em São Paulo nos últimos anos. Depois de uma leve recuperação em 2024, a frequência voltou a cair em 2025, aproximando-se novamente dos níveis registrados no período da pandemia. Para o interior, esse movimento parece ainda mais sensível, sobretudo em regiões onde a oferta de salas é menor e menos diversificada.

Na comparação regional, Araçatuba aparece em posição intermediária, mas distante das áreas mais bem colocadas. Enquanto Campinas registrou 35% de frequência ao cinema e Santos 33%, algumas regiões do interior também enfrentam dificuldades semelhantes, como Barretos (21%) e Franca (22%). Ainda assim, o resultado de Araçatuba evidencia que a experiência cinematográfica está longe de fazer parte da rotina da maioria da população regional.

Outro ponto que ajuda a medir o alcance da vida cultural é a visita a museus. Na região de Araçatuba, 19% dos moradores disseram ter ido a museus nos últimos 12 meses. O número também fica bem abaixo da média do Estado, de 32%, e distante da Região Metropolitana de São Paulo, que alcançou 39%. O indicador revela não apenas hábitos culturais mais restritos, mas também possível limitação de equipamentos e programações acessíveis à população local.

O cenário das bibliotecas também mostra fragilidade. Segundo o levantamento, apenas 18% da população da região administrativa de Araçatuba frequentou bibliotecas em 2025. O índice é inferior à média estadual, de 21%, e revela uma utilização modesta de um dos equipamentos culturais mais importantes para formação, leitura e acesso ao conhecimento. Em regiões como Marília, por exemplo, a frequência chegou a 29%.

Se por um lado cinema, museu e biblioteca apresentam números mais tímidos, por outro os eventos culturais ao vivo demonstram maior capacidade de mobilização regional. Em Araçatuba, 43% da população afirmou ter participado de shows ou espetáculos de música, dança, teatro, circo ou outras expressões artísticas ao longo do último ano. Embora ainda abaixo da média estadual de 47%, o dado sugere que atividades presenciais e populares seguem sendo a principal porta de entrada da cultura para muitos moradores.

Esse comportamento ajuda a entender um padrão comum no interior: a cultura tende a circular mais por meio de eventos pontuais, apresentações públicas, festas e atividades comunitárias do que por uma rede contínua de equipamentos culturais formais. Em outras palavras, o acesso existe, mas muitas vezes de forma concentrada, esporádica e dependente de programação específica, e não como hábito consolidado no cotidiano.

A pesquisa também mediu o quanto a população conhece a existência de cursos de arte em sua cidade ou região. Em Araçatuba, 42% disseram saber da oferta de aulas de música, dança, teatro, circo ou outras linguagens artísticas. O percentual é ligeiramente inferior à média do Estado, de 45%, e aponta que parte da população sequer tem clareza sobre quais oportunidades culturais formativas estão disponíveis ao seu redor.

E mesmo entre aqueles que conhecem esses cursos, a adesão ainda é baixa. Na região de Araçatuba, apenas 17% dos que disseram saber da existência dessas atividades afirmaram frequentá-las. O índice está abaixo da média estadual, de 21%, e indica que o desafio não está apenas em oferecer cursos, mas também em garantir acesso real, divulgação eficiente e condições para permanência do público.

Outro recorte importante do estudo mostra que a gratuidade tem peso decisivo na participação cultural do interior. Em Araçatuba, 23% da população participou apenas de atividades totalmente gratuitas, enquanto 41% frequentaram ações em que a maioria era gratuita. O dado coloca a região entre aquelas com maior presença de consumo cultural gratuito ou de baixo custo, evidenciando que o preço continua sendo um fator determinante no acesso.

Isso significa, na prática, que boa parte da vivência cultural regional depende de políticas públicas, ações comunitárias, eventos subsidiados ou programações abertas ao público. Em municípios do interior, onde a renda e a oferta privada podem ser mais limitadas, atividades gratuitas acabam exercendo um papel central para democratizar o acesso e ampliar a participação da população.

A forma como as pessoas descobrem essas programações também ajuda a entender os hábitos culturais locais. Na região de Araçatuba, 33% dos entrevistados disseram tomar conhecimento de atividades culturais gratuitas por meio de amigos ou familiares, 45% pela internet e 22% por outros meios. O resultado mostra que as redes sociais e a comunicação digital vêm ganhando força, mas o boca a boca ainda continua sendo relevante.

O levantamento ainda traz um retrato importante sobre leitura. Na região de Araçatuba, 29% da população leu apenas um livro nos últimos 12 meses; 33% leram entre dois e cinco livros; 7% leram mais de cinco; e 30% disseram não ter lido nenhum livro no período. Os dados revelam um cenário misto: existe uma parcela leitora significativa, mas também um contingente expressivo ainda distante do hábito da leitura.

Apesar desse quadro de uso ainda moderado dos serviços culturais, talvez o dado mais emblemático do estudo seja justamente o que aponta para uma demanda reprimida. Na região administrativa de Araçatuba, 84% da população afirmaram que gostariam que sua cidade ou região tivesse outras atividades culturais. Ou seja, mesmo onde a frequência é baixa, o desejo por mais cultura continua muito alto.

Esse resultado sugere que a baixa participação não pode ser lida simplesmente como falta de interesse. Ao contrário: os números indicam que a população quer mais opções, mais diversidade e mais presença da cultura no cotidiano. O problema parece estar menos na vontade do público e mais nas barreiras que dificultam o acesso, como distância, custo, pouca divulgação ou oferta insuficiente de atividades permanentes.

Em uma região como Araçatuba, que reúne cidades com forte vida comunitária, calendário de eventos e potencial criativo, os dados funcionam também como alerta para gestores públicos, produtores culturais e instituições locais. Ampliar o acesso à cultura não significa apenas realizar eventos, mas estruturar políticas contínuas que aproximem a população de bibliotecas, museus, cinemas, oficinas, formação artística e espaços de convivência cultural.

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