COLUNISTA

Do 'hosana' à cruz: o caminho do verdadeiro rei

da Redação
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Abrimos a Semana Santa, outrora chamada de Semana Maior, contemplando o coração da nossa fé: o mistério pascal. O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor nos introduz nesse caminho com uma celebração que possui dois momentos profundamente unidos: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a proclamação de sua Paixão. Entre os ramos e a cruz, somos convidados a compreender quem é, de fato, o nosso Rei.

A primeira leitura, do profeta Isaías (Is 50,4-7), apresenta a figura do Servo Sofredor. Ele é aquele que escuta a Deus como discípulo e recebe a missão de consolar os abatidos. Mesmo diante da violência - "ofereci as costas para me baterem" - ele não recua, pois confia plenamente no Senhor, seu Auxiliador. Este Servo não responde com revolta, mas com fidelidade. Aqui encontramos um retrato profético de Cristo: obediente, manso e firme, que enfrenta o sofrimento sem perder a confiança em Deus.

Na segunda leitura (Fl 2,6-11), São Paulo nos oferece um dos mais belos hinos cristológicos. Jesus, sendo Deus, não se apega à sua condição divina, mas se esvazia, assume a condição humana e se humilha até a morte de cruz. Esse caminho de descida, de humildade radical, é justamente o caminho da exaltação: Deus o eleva acima de tudo. Assim, a lógica de Deus contrasta com a lógica do mundo. A glória passa pela entrega, a vitória passa pela cruz.

No Evangelho da procissão (Mt 21,1-11), vemos Jesus entrando em Jerusalém montado num jumento. Em São Mateus, esse detalhe é importante: ele destaca o cumprimento da profecia — o Messias é um rei manso, humilde, diferente dos poderosos deste mundo. Não vem com armas ou exércitos, mas com simplicidade. A multidão o aclama com entusiasmo: "Hosana ao Filho de Davi!". No entanto, essa mesma multidão, poucos dias depois, mudará seu clamor.

Já no Evangelho da Paixão (Mt 27,11-54), também segundo São Mateus, percebemos características próprias desse evangelista. Mateus ressalta a responsabilidade coletiva e o drama das escolhas humanas: o povo prefere Barrabás a Jesus. Pilatos lava as mãos, mas não assume a verdade. A paixão, em Mateus, mostra com força a rejeição de Cristo, mas também revela sinais grandiosos no momento de sua morte: o véu do templo se rasga, a terra treme, e até um oficial romano reconhece: "Ele era mesmo Filho de Deus!". Ou seja, no aparente fracasso da cruz, revela-se a identidade divina de Jesus.

Entre o "Hosana" e o "Seja crucificado", vemos a instabilidade do coração humano. É fácil aclamar Jesus quando tudo vai bem; mais difícil é permanecer fiel quando o caminho exige cruz. Por isso, esta Semana Santa é um convite à coerência: seguir Cristo não apenas nos momentos de alegria, mas também na entrega, no serviço, no amor que se doa.

Ao participarmos das celebrações - da Ceia do Senhor, da Paixão e da Vigília Pascal - somos chamados a entrar nesse mistério com fé viva. Não como espectadores, mas como discípulos. A liturgia não é apenas recordação, é anamensis, atualização: hoje, Cristo passa em nossa vida, pede nossa adesão, convida-nos a segui-lo.

Que esta Semana Santa nos ajude a reconhecer o verdadeiro rosto de Jesus: o Rei humilde, o Servo sofredor, o Senhor glorificado. E que, ao final desse caminho, possamos proclamar com a vida aquilo que professamos com os lábios: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Amém.

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