COLUNISTA

Somos iluminados por cristo, a verdadeira luz do mundo

Por Dom Caetano Ferrari |
| Tempo de leitura: 4 min
Bispo Emérito de Bauru

No caminho quaresmal, a Igreja celebra o 4º domingo da quaresma, tradicionalmente chamado Domingo Laetare. O nome vem da primeira palavra da antífona de entrada da Missa em latim: "Laetare, Jerusalem" - "Alegra-te, Jerusalém". Trata-se de um convite à alegria no meio do tempo penitencial da quaresma, uma espécie de pausa que antecipa a esperança da Páscoa, quando celebramos a vitória de Cristo sobre a morte.

Essa alegria tem também uma profunda dimensão catecumenal. Nos primeiros séculos da Igreja, aqueles que se preparavam para receber o batismo - os catecúmenos - intensificavam sua oração e preparação espiritual à medida que se aproximava o dia de sua iniciação cristã. O Batismo era celebrado na grande noite do Sábado Santo, na Vigília Pascal. Por isso, os Evangelhos proclamados no 3º, 4º e 5º domingos da quaresma formam um verdadeiro itinerário espiritual. Eles ajudavam os catecúmenos a compreender o que o sacramento do Batismo realizaria em suas vidas. A liturgia conduzia progressivamente ao mistério de Cristo, mostrando que o Batismo transforma profundamente a existência humana.

Na primeira leitura (cf. 1Sm. 16,1.6-7.10-13), Davi é ungido rei por Samuel. Davi é o eleito de Deus. Então o Senhor disse a Samuel: "Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração". Jesus, porém, é o novo Davi, em quem se destaca a dignidade de rei e sacerdote para nos lembrar o Cristo-Ungido- Messias e, e ao mesmo tempo trazer à nossa lembrança a nossa unção batismal nele em sinal de que somos "Cristo com Cristo", membros do povo messiânico.

O Evangelho deste domingo apresenta o conhecido relato da cura do cego de nascença (cf. Jo. 9,1-41). Ao encontrar aquele homem, Jesus declara: "Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo". (Jo. 9,5). Com um gesto simples e cheio de significado, Ele faz lama, coloca-a sobre os olhos do cego e lhe diz: "Vai lavar-te na piscina de Siloé". (Jo. 9,7). O homem vai, lava-se e volta enxergando. Esse gesto tem uma profunda simbologia batismal. A água que lava os olhos do cego recorda a água do batismo, pela qual o ser humano é purificado e iluminado. Não se trata apenas de recuperar a visão física, mas de receber uma nova capacidade de ver com os olhos da fé. A própria experiência do homem curado revela esse caminho de iluminação. No início ele conhece Jesus apenas de forma limitada, dizendo: "Aquele homem chamado Jesus fez lama [...] então fui, lavei-me e comecei a ver". (Jo. 9,11). Mais tarde, diante das perguntas das autoridades, ele afirma: "É um profeta". (Jo. 9,17). Finalmente, quando encontra novamente Jesus e escuta suas palavras, faz a grande profissão de fé: "Eu creio, Senhor!" (Jo. 9,38). Esse itinerário é semelhante ao caminho do catecúmeno. A fé cresce progressivamente até chegar ao encontro pessoal com Cristo.

A segunda leitura, da Carta de São Paulo aos Efésios (cf. Ef. 5,8-14), ilumina ainda mais esse mistério. O apóstolo recorda a transformação que acontece na vida daquele que encontra Cristo: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz". (Ef 5,8). O batismo realiza exatamente essa passagem espiritual: da escuridão para a luz. Antes, a vida estava marcada pela ignorância de Deus; agora, iluminada pela fé, torna-se capaz de produzir frutos novos: "O fruto da luz chama-se: bondade, justiça e verdade". (Ef. 5,9). São Paulo ainda acrescenta uma exortação que ressoa como um antigo hino batismal da Igreja: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá". (Ef. 5,14). É como se a Igreja dissesse ao catecúmeno — e a cada cristão — que Cristo veio despertar a humanidade de seu sono espiritual para fazê-la participar de sua própria luz.

Assim, o Evangelho e a leitura apostólica convergem para a mesma verdade: Cristo é a luz que ilumina a vida humana. O cego de nascença representa toda a humanidade que, sem Cristo, caminha na escuridão. Ao encontrar-se com Ele, porém, descobre uma nova visão da vida e da própria existência. Hoje, portanto, a liturgia nos recorda que o catecúmeno — e, de certo modo, todo cristão — é chamado a realizar essa passagem: sair das trevas da ignorância para a luz da fé em Cristo. O batismo não é apenas um rito do passado, mas uma realidade viva que continua a transformar nossa maneira de pensar, viver e amar. A Igreja nos convida a renovar essa alegria: a alegria de sermos iluminados por Cristo, a verdadeira luz do mundo.

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