Legado das mulheres na Educação: Aplausos a Salete Alberti
Durante uma sessão da Câmara Municipal de Bauru, a professora Salete da Silva Alberti recebeu uma Moção de Aplausos em reconhecimento à sua trajetória. Na ocasião, uma frase chamou atenção pela força de seu significado. Ao referir-se à educadora, o professor Clodoaldo Meneguello Cardoso sintetizou: “Saletinha não foi somente uma professora, mas uma educadora.”
A observação, aparentemente simples, revela algo que as estatísticas educacionais raramente conseguem mostrar com clareza: a diferença entre ocupar uma função docente e exercer plenamente o papel de educador — ou, em outras palavras, a diferença entre ensinar e educar.
Na semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, essa distinção ganha um significado ainda mais amplo. Refletir sobre o papel das mulheres na educação brasileira significa reconhecer o lugar que elas historicamente ocuparam na formação intelectual e humana de gerações inteiras.
Ao longo de décadas, o sistema educacional brasileiro consolidou um perfil fortemente feminizado, sobretudo nas etapas iniciais da educação básica. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) indicam que mais de 80% dos docentes da educação básica no país são mulheres, percentual que ultrapassa 90% na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental.
À medida que se avança nos níveis de ensino — especialmente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio — a participação masculina cresce, mas as mulheres continuam sendo maioria no magistério. Esse fenômeno, conhecido como feminização do ensino, não é exclusivo do Brasil. Em diferentes países, processos históricos associaram o trabalho educativo, sobretudo com crianças, a funções socialmente vinculadas ao cuidado, à formação moral e à socialização das novas gerações.
Discutir essa presença massiva de mulheres na educação significa também refletir sobre a divisão social do trabalho, os estereótipos de gênero e as condições de valorização da carreira docente. Não por acaso, a profissionalização do ensino elementar ao longo do século XX ocorreu paralelamente a processos de feminização da profissão, muitas vezes acompanhados por menor reconhecimento salarial e institucional. Ainda assim, é nesse espaço que se realiza uma das atividades mais decisivas para o desenvolvimento de qualquer sociedade: a formação intelectual e cidadã de novas gerações.
A presença majoritária de mulheres na educação revela, ao mesmo tempo, a contribuição histórica feminina para a formação das novas gerações e os desafios ainda existentes na construção de maior equidade nas estruturas profissionais e institucionais do sistema educacional.
No entanto, há uma dimensão desse debate que não aparece nas estatísticas. Os números revelam a predominância feminina no magistério, mas dizem pouco sobre aquilo que acontece no interior da experiência educativa.
É nesse ponto que a frieza dos dados encontra a experiência concreta da educação. Se as estatísticas mostram que milhares de mulheres sustentam cotidianamente o sistema educacional brasileiro, trajetórias como a de Salete da Silva Alberti revelam como a educação se realiza na vida real: no encontro entre pessoas, na atenção ao processo formativo e na capacidade de marcar vidas.
Ser professor é transmitir conhecimentos e organizar o processo de ensino. Ser educador, porém, é participar da formação de sujeitos, situar o conhecimento no mundo e deixar marcas duradouras na trajetória de quem aprende.
Ao lembrar o Dia Internacional da Mulher, reconhecer a presença decisiva das mulheres na educação significa também reconhecer que muitas delas exerceram não apenas a função de professoras, mas a verdadeira vocação de educadoras — mulheres que, ao longo de décadas, contribuíram para formar gerações, incentivar o pensamento crítico e abrir caminhos para que outros pudessem compreender e transformar a realidade.
Celebrar essa presença é reconhecer que educar é mais do que ensinar. É participar de um processo profundo de formação humana e intelectual que sustenta a própria vida social.