OPINIÃO

Eleições com IA

Por Guto Calazans | O autor é publicitário e jornalista, diretor da Azul Tomate Comunicação e Marketing Ltda
| Tempo de leitura: 2 min

Está cada vez mais árduo conversar sobre política. Não porque o tema seja complexo ele sempre foi, mas porque se tornou refém da superficialidade. Poucos querem ler. Raros desejam aprender.

Quase ninguém aceita revisar convicções. Ainda assim, multiplicam-se especialistas autoproclamados, filósofos de grupo de WhatsApp, hermeneutas de manchete recortada.

A cronologia do debate público é sintomática. Primeiro, alguém compartilha um vídeo de procedência duvidosa. Depois, uma frase de efeito retirada de contexto. Em seguida, instaura-se o tribunal moral.

Quando se pergunta pela fonte, a resposta costuma ser um constrangedor "não sei", imediatamente sucedido por uma tentativa de classificação ideológica: "Você é de esquerda?". O argumento cede lugar ao rótulo. A informação é substituída pela identidade.

É preciso afirmar, com serenidade intelectual, que posicionamento político não exime ninguém da obrigação de estudar os fatos.

Declarar voto em Jair Bolsonaro ou em Tarcísio de Freitas, e não em Luiz Inácio Lula da Silva, é uma escolha legítima dentro do regime democrático.

Contudo, a legitimidade do voto não dispensa o dever da informação. Direita ou esquerda não são categorias mágicas; são matrizes ideológicas que exigem compreensão histórica, econômica e institucional.

Tomemos exemplos concretos. Espalhou-se, em determinado momento, que uma escola de samba de Niterói teria recebido verba privilegiada por alinhamento político.

A realidade orçamentária demonstrou que a agremiação recebeu valores equivalentes aos das demais escolas, conforme critérios públicos.

Da mesma forma, é recorrente a desinformação sobre a Lei Rouanet, como se longas-metragens recebessem automaticamente recursos diretos do Estado. A lei opera por meio de renúncia fiscal e critérios técnicos; não é um cofre ideológico aberto.

As chamadas fake news muitas vezes atribuídas exclusivamente "à esquerda" ou "à direita", conforme a conveniência narrativa prosperam porque encontram terreno fértil na preguiça intelectual.

Há quem acredite em vídeos produzidos por inteligência artificial como se fossem registros empíricos irrefutáveis.

Há quem reproduza montagens com a convicção de um cronista do século XIX. E há, inevitavelmente, o "tiozão do WhatsApp", figura sociológica que simboliza o compartilhamento acrítico travestido de engajamento cívico.

Não podemos abdicar da leitura. Não podemos renunciar ao diálogo. Não podemos suspender o contato com a realidade verificável. A democracia pressupõe cidadãos informados, não torcedores digitais.

Este ano é ano eleitoral. Historicamente, é também o período em que a manipulação se intensifica, as narrativas se sofisticam e as emoções são exploradas com método.

Precisamos de vigilância cognitiva, não de histeria coletiva. Precisamos de fontes, não de suposições.

Precisamos de responsabilidade, não de viralização.

Discutir política exige mais do que opinião; exige repertório. E repertório se constrói com estudo, leitura e disposição para confrontar as próprias certezas. O resto é apenas ruído alto, insistente e perigosamente confortável.

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