OPINIÃO

Os quarenta dias

Por Claudia Zogheib | A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC
| Tempo de leitura: 2 min

Em muitas religiões, quarenta dias são números simbólicos que representam um tempo de provação, purificação, preparação e transformação espiritual. Quarenta dias também marcam um período de descanso e resguardo para mãe e seu filho após o nascimento, representam a passagem de um estado para outro, transformação que serve para apropriação de um novo estado diante de um nascimento — nasce um bebê, nascem seus pais.

A psicanálise aborda o tempo não de forma cronológica, mas a partir da atemporalidade do inconsciente onde o tempo é múltiplo e focado no argumento que tem um passado que é ressignificado no presente.

Em qualquer que seja a construção ideológica, o tempo nos dá a oportunidade de reflexão acerca de nossos traumas e desejos, e somos convocados a mudanças internas à medida que nos incomodamos ou ficamos doentes com nossa maneira de viver, quando nos afastamos de nós mesmos.

Se conseguimos nos escutar, temos que enfrentar uma desidealização do nosso ideal de ego que, enquanto não acessado, não nos permite entender o quanto nos perdemos na arrogância, onipotência e necessidade de posse com o nosso próprio eu, quase sempre movido por ciúmes, inveja e destrutividade que, ao mesmo tempo que nos corrói, não nos permite acessar as origens de nossos incômodos que diferenciam o nosso eu do eu do outro em relação às projeções e introjeções.

Somos colocados o tempo todo diante de nossas vulnerabilidades, e distraídos ou desinteressados de nossa subjetividade, refutamos nos acessar.

A vida é a grande oportunidade que temos para refletir a transcendência, e somos convidados à medida que nos colocamos no lugar de ouvintes de nós mesmos a entender a finitude da vida e o quanto a pequenez de querer mais a troco de destruir o próprio eu ou o outro acaba por nos colocar em conquistas vazias ou mantras que não se sustentam.

Para os cristãos, a dimensão simbólica das cinzas nos lembra para onde iremos depois que tudo se apagar, e se entendêssemos as coisas não somente do ponto de vista religioso mas como dimensão antropológica, nos colocaríamos frente às nossas reflexões e diante do próximo movidos por urgências, não seríamos tão apegados às coisas que passam e que são fontes vazias de destruição.

Destinados ao pó, a única garantia que temos vem das escolhas que fazemos durante o percurso da vida quando reatamos os reais valores que, em liberdade, atribuímos às nossas vivências cotidianas.

Do contrário, são máscaras que transmutam embaçado e remontam um supereu que nos destina ao equívoco de nós mesmos.

Música “Miserere”, com Bocelli, Pavarotti e Zucchero.

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