Incrível como o sotaque nordestino trançado na bossa e na MPB se acomoda facilmente nos ouvidos. A língua brasileira se ramifica em cada brasileiro, em cada língua que se enrola no céu da boca pra parir um novo dialeto. A porta, a porta, a porta, a porta. A porteira, o portão. A viola caipira, o cuscuz, a feijoada, o pão de queijo, as quebradeiras de coco, o samba, o chimarrão, a onça que descansa no pantanal, seu José corta a cana no quintal.
O povo brasileiro nasce e se vacina, a marca no braço na verdade é de pregabalina pra aguentar a labuta, olhar pro céu e agradecer. Aglutinar as palavras, enrolar as línguas e errar os erres e arrastar os esses. Trincar os dentes na fala rápida e sentir as pregas vocais na fala lenta de quem tem a sorte de ter paz. Engolir o "A" no "para", colocar um "N" em "muito", porque "muito" soa muito mecânico e o nosso sangue bombeia no coração e não numa engrenagem movida a óleo, mas se fosse, seria o óleo da oficina do seu Joaquim. "Laborare" é dicionário Aurélio, mas "trabaiá" é língua brasileira e mora no suor da dona Maria depois da última baldeação antes de casa.
Todo brasileiro é parafuso, todo brasileiro é pau pra toda obra, todo brasileiro é brasileiramente singular e universal, contraste que só é passível de existência na língua brasileira. Pra quem é filho de mundo plural, língua imposta não funciona. Em terra de pandeiro, modelo pronto não sobrevive, gente inflexível não se sustenta e gente dura nasce que nem erva daninha, corta, corta e nasce e renasce.
Sob o sol do sul da América, terno Armani não cabe na sinfonia e sua escova suíça morre na maresia. Sobre o asfalto irregular das ruas interioranas e continentais da terra da compadecida, o que manda é o ritmo da vida que se faz nas entrelinhas e que se sobressai quando se percebe que a formalidade se retrai pra dar lugar à vida dinâmica. Entre as brisas abaixo do Equador, a música é quem te ensina como é que a banda toca - e assim a gente segue dançando.