BAURU

Entre trincheiras e memórias, Museu Militar guarda história

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Priscila Medeiros/JCNET
Fachada - esquina da Antonio Alves com Bandeirantes
Fachada - esquina da Antonio Alves com Bandeirantes

PLocalizado no coração de Bauru (Antonio Alves com Bandeirantes), poucos lugares em Bauru acumulam tantas camadas de tempo quanto o Museu Histórico Militar. Instalado em um prédio centenário, o espaço vai além da exposição de armas, fardas e objetos bélicos: preserva afetos, trajetórias familiares e capítulos decisivos da história paulista e brasileira, da Revolução Constitucionalista de 1932 à participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Logo na entrada, o visitante é conduzido a um período em que São Paulo se levantou contra o governo federal em defesa da Constituição. O museu abriga um importante acervo da Revolução de 32: capacetes moldados a partir de moedas federais, matracas usadas para simular metralhadoras nas trincheiras, lançadores de granadas improvisados por estudantes universitários e até anéis entregues a quem doou ouro para financiar o movimento ajudam a contar uma história marcada pela escassez de recursos e pela criatividade diante da guerra.

A narrativa avança até a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil, após hesitação política, enviou seus "pracinhas" ao front europeu. Uniformes originais, capacetes das forças do Eixo e dos Aliados, barracas de campanha, equipamentos de enfermagem e o emblemático símbolo da cobra fumando — que ironizava a descrença na entrada do país no conflito — compõem um acervo raro, reunido quase integralmente por doações. "É o único museu da região que tem material consistente da Revolução de 32 e da Segunda Guerra", afirma o diretor do museu, Jorge Santos.

Mas o museu não se limita ao universo militar. O visitante encontra ali desde os primeiros extintores utilizados no combate ao fogo, antes mesmo da criação do Corpo de Bombeiros de Bauru, até semáforos manuais da década de 1970, usados no cruzamento da Avenida Rodrigues Alves com a Rodovia Marechal Rondon, além de brinquedos antigos, moedas e cédulas que percorrem do Brasil Império aos dias atuais, cerâmicas e peças indígenas, objetos ligados à escravidão, mobiliário histórico e registros da vida urbana da cidade.

Parte essencial dessa história está nas paredes que abrigam o acervo. O prédio, construído por volta de 1900, foi originalmente a casa paroquial do primeiro padre de Bauru, de origem italiana. A arquitetura guarda traços singulares, como arcos inspirados no Coliseu de Roma e materiais construtivos trazidos da Itália. Ao longo do século, o imóvel acumulou funções como delegacia de polícia, sede de jornal empastelado durante a Era Vargas, Câmara Municipal, pronto-socorro, cozinha da prefeitura, FEBEM, biblioteca, escola de balé, local de pagamento de servidores públicos, espaço do Mobral e até ponto de atuação do Projeto Rondon, conforme informa Santos. Abandonado entre 1996 e 2017, o prédio foi recuperado para abrigar o museu após ser cedido pela Prefeitura Municipal, mantendo marcas do passado — como grades, paredes riscadas e estruturas originais — como parte da narrativa histórica.

Para Jorge Santos, o papel do museu vai além da conservação material. "O que a gente faz aqui é trazer a memória afetiva. Quando você desperta essa memória, o aluno começa a amar a história, começa a se reconhecer nela", explica. Segundo ele, ao descobrir a trajetória do avô, do pai ou de personagens anônimos da cidade, o visitante entende que também pode construir sua própria história. "Não é sobre se orgulhar ou se envergonhar do passado, mas aprender com os erros e dar continuidade aos acertos."

Essa proposta se materializa em iniciativas simbólicas, como o painel em que familiares podem colocar estrelas com os nomes de parentes que participaram da Revolução de 32 ou da Segunda Guerra. Em alguns casos, a redescoberta da memória resultou em novas doações ao acervo, ampliando ainda mais o patrimônio histórico do museu.

Apesar da relevância cultural e educativa, o museu enfrenta dificuldades estruturais e falta de apoio do poder público. Pedidos formais por sinalização turística, vagas para estacionamento de ônibus escolares e para idosos, além da solicitação para o corte de uma árvore infestada por cupins em frente ao imóvel — de propriedade da Prefeitura — nunca foram respondidos. "A gente não pede dinheiro. Pede ajuda para trabalhar", resume Jorge.

A crítica se estende à Prefeitura de Bauru e à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), especialmente após a implantação da zona azul no entorno do museu, sem qualquer planejamento para receber excursões escolares ou visitantes de outras cidades. "Vans e ônibus não têm onde estacionar, e o visitante, mesmo indo a um espaço cultural gratuito, acaba multado", afirma o diretor.

Em nota, a Prefeitura de Bauru informou que a árvore citada pela reportagem deverá ser retirada nesta semana, de acordo com o cronograma estabelecido pela Secretaria de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal. Outro ponto sensível é a ausência das escolas públicas municipais e estaduais de Bauru entre os visitantes frequentes do museu, enquanto instituições de cidades da região e escolas particulares utilizam o espaço regularmente como ferramenta pedagógica. "Falta vontade e valorização da própria história", lamenta.

Ainda assim, o museu resiste. Mantém-se com energia solar, reaproveitamento de materiais, doações e trabalho voluntário. É, ao mesmo tempo, um guardião do passado e um espaço vivo de educação histórica, onde cada objeto — de uma carroça da antiga Baixada do Silvino a um capacete da Força Expedicionária Brasileira — ajuda a entender quem fomos e quem somos como cidade.

COMO IR

Localizado na esquina das ruas Bandeirantes e Antonio Alves, no Centro, o museu fica aberto para visitação de segunda a sábado, das 8h às 12h. O período da tarde é reservado para excursões escolares e de grupos. O telefone para agendamentos e doações é (14) 99793-5518.

Itens da Revolução de 1932
Itens da Revolução de 1932
Bicicletas usadas por policiais em patrulhamento.
Bicicletas usadas por policiais em patrulhamento.
Uniforme usado durante a Segunda Guerra Mundial
Uniforme usado durante a Segunda Guerra Mundial
Lança granada inventado para jogar o artefato mais distante.
Lança granada inventado para jogar o artefato mais distante.
Matraca inventada para imitar som de metralhadora
Matraca inventada para imitar som de metralhadora
Jorge mostra o mural feito com pisos retirados do prédio durante reforma
Jorge mostra o mural feito com pisos retirados do prédio durante reforma
Jorge e a filha Laura Santos, voluntária e responsável pela comunicação do Museu, na carroça do século passado
Jorge e a filha Laura Santos, voluntária e responsável pela comunicação do Museu, na carroça do século passado
Jorge Santos mostra onde ficava o piso original do prédio
Jorge Santos mostra onde ficava o piso original do prédio

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