COLUNISTA

Cristãos atrás das grades

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

O que vou relatar não é metáfora nem hipérbole; é uma realidade crua. Neste exato momento, em diversas partes do mundo, homens e mulheres são tratados como criminosos pelo simples "crime" de adorar ao Deus da Bíblia. Relatos recentes vindos da China descrevem cenas que ferem a consciência: idosos algemados, famílias separadas à força, reuniões interrompidas e cristãos levados de casas para celas frias. Um pastor — cujo único propósito era conduzir seu rebanho em oração e ensino — agora vê o mundo através das grades. Nos últimos anos, com regulações religiosas mais rígidas, a pressão do Estado aumentou sobre as chamadas house churches (igrejas domésticas): comunidades que se reúnem para simplesmente orar (rezar) em apartamentos, porões e salas secretas. Elas existem porque se recusam a submeter a soberania de Cristo à supervisão política. São igrejas "fora do palco": longe dos holofotes do poder, porém perto do coração de Deus. E é justamente essa fidelidade — silenciosa, cotidiana, perseverante — que as torna "perigosas" para regimes que desejam controle total.

O aspecto mais desconcertante — e, paradoxalmente, glorioso — é a postura desses irmãos - em audiências eles não pedem conforto, nem mesmo a devida libertação e nem transformam tudo em apelo humanitário. O pedido deles é missionário: "Que o mundo saiba que não somos criminosos; somos cristãos, amamos a Jesus". Eles querem que a verdade fique nítida: "Seguir Jesus não é subversão política; é amor a Deus". Aqui ecoa uma convicção lembrada por Abraham Kuyper (1º ministro holandês): "a liberdade de consciência não é uma concessão generosa do Estado, mas um direito que procede de Deus, o Criador". Quando um governo prende pessoas por orarem, não está apenas reprimindo uma religião; está tentando usurpar autoridade sobre a alma, como se o Estado fosse senhor do que somente Cristo pode governar. Há também um alerta maior: Se hoje um Estado tenta calar uma igreja; amanhã poderá tentar calar qualquer consciência.

Mas ainda assim, a resposta desses crentes nos desarma. No meio da angústia, o combustível deles não é o medo, mas a fé. Eles oram para que as portas da prisão se abram, sim; porém oram com ainda mais fervor para que seus corações permaneçam firmes caso as celas continuem trancadas. Isso é maturidade espiritual: Deus não é Deus apenas do livramento; Ele é Deus também da perseverança. A oração bíblica não serve só para mudar circunstâncias, mas para sustentar fidelidade quando as circunstâncias não mudam.

Essa resiliência nos leva diretamente a Atos 8.1-4. Após o apedrejamento de Estêvão, a perseguição irrompeu em Jerusalém. A lógica humana diria: "acabou". Mas a providência divina opera por paradoxos. Os discípulos foram dispersos — e o Evangelho foi com eles. O que parecia derrota tornou-se rota missionária. Tertuliano, um dos pais da Igreja primitiva, resumiu esse mistério ao dizer que "o sangue dos mártires foi a semente da Igreja". A perseguição não matou a Igreja primitiva; ela a fez florescer em solo árido.

Agora a reflexão dói porque nos obriga a olhar para nossa própria casa. No Brasil, onde normalmente ninguém é preso por carregar uma Bíblia, existe outro tipo de encarceramento — mais sutil e, por isso, mais letal. Dietrich Bonhoeffer chamou isso de "graça barata": uma fé de consumo, que não custa nada, não confronta o pecado, não forma caráter e não produz santidade. Nosso problema, muitas vezes, não é a repressão aberta ao Evangelho, mas a proliferação de um "sub-evangelho": mensagens que prometem benefícios sem cruz, vitória sem arrependimento, sucesso sem discipulado.

Lá, eles lutam para adorar a Deus em espírito e em verdade. Aqui, não raro, negociamos a fé para agradar ideologias, modismos ou, pior, para transformar o sagrado em instrumento de lucro. Essa é a nossa prisão: a superficialidade. Eles estão atrás de grades de ferro; muitos de nós, atrás de grades douradas — entretenimento, vaidade, consumo e distrações que anestesiam a consciência. A perseguição externa revela quem a Igreja é; a sedução interna revela em quem a Igreja confia.

Portanto, o convite de hoje é duplo: interceder e examinar. Oremos pelos irmãos perseguidos, pelas famílias separadas, pelas mães que choram, pelos pastores encarcerados, e para que Deus sustente sua Igreja com coragem, prudência e amor. Mas oremos também por nós: para que o Senhor nos livre da fé rasa e nos conduza a uma obediência íntegra. Governos podem prender corpos, confiscar prédios e silenciar vozes por um tempo, mas não conseguem apagar o fogo que o Espírito Santo acende. A Igreja pode ser ferida; em Cristo, ela não é vencida. Pensemos nisso e oremos.

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