COLUNISTA

A caridade que ilumina o mundo

Por Dom Caetano Ferrari |
| Tempo de leitura: 3 min
Bispo Emérito de Bauru

As leituras bíblicas deste 5º domingo do tempo comum convergem para uma imagem forte e sempre atual: a luz. Luz que nasce da fidelidade a Deus, luz que se manifesta nas obras concretas de amor, luz que não pode ser escondida, porque é dom recebido para ser partilhado. Em tempos marcados por tantas sombras - indiferença, violência, desigualdade - a Palavra de Deus nos recorda que o verdadeiro caminho cristão é aquele que ilumina a vida dos outros.

Na primeira leitura, retirada do profeta Isaías (Is. 58,7-10), o Senhor nos apresenta um culto que agrada a Deus não apenas pelas palavras ou ritos, mas pela prática da justiça e da misericórdia. O profeta é claro: "Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o". (cf. Is. 58,7). A consequência dessa atitude é luminosa: "Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá". (cf. Is. 58, 8). Deus se faz presente quando o ser humano escolhe amar, servir e libertar. Onde há cuidado com o necessitado, ali nasce a luz, mesmo em meio às trevas.

O Salmo responsorial (Sl. 111, 112) retoma essa mesma imagem, quase como um refrão para a vida: "Uma luz brilha nas trevas para o justo, permanece para sempre o bem que fez". O salmista descreve o justo como aquele que é "correto, generoso e compassivo", que reparte seus bens com os pobres e confia em Deus mesmo diante das más notícias. A luz do justo não é passageira; ela permanece, porque nasce de um coração enraizado na fé e na caridade.

Na segunda leitura (cf. 1Cor 2,1-5), São Paulo dizia aos cristãos de Corinto que veio anunciar o "mistério de Deus" não recorrendo a uma linguagem elevada segundo a sabedoria humana, como havia tentado apresentar aos filósofos do Areópago de Atenas Jesus Cristo que morrera numa cruz, mas ressuscitara. Naquela ocasião ninguém quis ouvi-lo, por considerar essa doutrina uma loucura (cf. At 17, 22-34). Agora São Paulo esclarecia que recorria noutra sabedoria, a de Jesus Cristo, e este, crucificado. Esse é o verdadeiro mistério de Deus que veio anunciar aos coríntios, que a Cruz e ressurreição são inseparáveis. Não se pode falar de Cristo ressuscitado sem admitir seus sofrimentos e sua morte, nem de sua morte sem a ressurreição. Por isso a fé que conta é a que se baseia no poder de Deus e não em argumentos da sabedoria humana.

No Evangelho segundo Mateus (Mt. 5,13-16), Jesus aprofunda esse chamado ao dizer aos seus discípulos: "Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo". Não se trata de um privilégio, mas de uma responsabilidade. A luz não é para ser escondida, mas colocada no alto, para iluminar a todos. Por isso, o Senhor conclui: "Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus". (cf. Mt. 5, 16). A fé cristã é, necessariamente, visível no amor vivido, no bem praticado, na justiça defendida.

Essa Palavra encontra um reflexo luminoso na vida de São Francisco de Assis. Ele levou o Evangelho ao extremo da simplicidade e da coerência. Francisco repartiu o pão com os famintos, acolheu os pobres, abraçou os leprosos e fez de sua vida um sinal vivo da luz de Cristo. Sem discursos elaborados, tornou-se luz para seu tempo e continua iluminando gerações. Nele se cumpre plenamente o que diz o salmo: "permanece para sempre o bem que fez".

Também nós somos chamados a esse caminho. Não basta professar a fé; é preciso deixá-la brilhar nas atitudes diárias, na solidariedade concreta, no compromisso com a dignidade humana. Quando escolhemos amar, servir e perdoar, mesmo em pequenos gestos, a luz de Deus rompe as trevas do mundo. Que, à exemplo de São Francisco, possamos ser sal que dá sabor à vida e luz que aponta para Deus. E que, vivendo as boas obras, muitos possam glorificar o Pai que está nos céus.

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