Tenho ouvido cada vez mais líderes falando sobre inteligência artificial. Ferramentas, automações, ganhos de eficiência, dashboards mais rápidos, decisões baseadas em dados. Tudo isso importa, claro. Mas nada disso revela, de fato, qual é o maior risco da IA.
O que mais tem me chamado a atenção não é a velocidade da tecnologia, e sim o quanto ainda estamos pouco preparados para decidir melhor em um cenário mediado por algoritmos.
Em conversas recentes com CEOs, diretores e times de alta gestão — e ao acompanhar reflexões globais em espaços como o SXSW London, onde a IA apareceu menos como tecnologia isolada e mais como um contexto que molda trabalho, cultura e liderança — um ponto ficou evidente: o maior desafio da inteligência artificial não é técnico. É humano.
Quanto mais avançados os sistemas, maior o peso do julgamento humano. A IA não elimina decisões; ela amplifica suas consequências. Escancara premissas, vieses, atalhos mentais e lacunas de pensamento com uma clareza, muitas vezes, desconfortável. O problema não está na falta de tecnologia, mas na falta de letramento para interpretar, contextualizar e assumir responsabilidade pelas escolhas feitas a partir dela.
Letramento em IA vai além da tecnologia
Quando falamos de letramento em IA, não estamos falando de aprender a usar ferramentas ou dominar prompts sofisticados. Trata-se de desenvolver a capacidade de formular boas perguntas, reconhecer limites, ler contextos complexos e sustentar decisões que nenhum algoritmo pode assumir no nosso lugar.
A questão central deixou de ser capacidade computacional e passou a ser julgamento crítico. Não é sobre o quanto a tecnologia responde, mas sobre como líderes escolhem agir diante dessas respostas.
Aplicação no dia a dia
Na prática, vejo isso todos os dias. Muitos líderes ainda esperam que a IA entregue respostas prontas para dilemas estratégicos. Mas, na realidade, ela apenas revela algo que já existia. Decisões mal formuladas continuam sendo decisões frágeis, mesmo quando apoiadas pelos sistemas mais avançados. Algoritmos não corrigem ausência de clareza, visão ou intenção.
O risco da terceirização do pensamento
Outro risco cresce à medida que delegamos mais análises e recomendações à tecnologia: o de terceirizarmos o pensamento crítico. Delegar cálculo é legítimo. Delegar julgamento não é. Liderar na era da IA exige diferenciar, com maturidade, o que pode ser automatizado daquilo que é essencialmente humano — ética, empatia, leitura de contexto e responsabilidade pelas consequências.
A lacuna da IA se preenche com aprendizagem
Por isso, letramento em IA é, antes de tudo, um tema de aprendizagem organizacional. Envolve pensamento crítico, repertório ético, visão sistêmica e disposição para aprender continuamente. Envolve a coragem de dizer “ainda não sei”, de testar, de revisar decisões e de criar ambientes onde aprender não seja exceção, mas parte do trabalho.
Na Scaffold Education, atuamos exatamente nessa interseção entre liderança, estratégia, tecnologia e desenvolvimento humano. Nosso trabalho é ajudar líderes a aprender enquanto decidem, conectando educação corporativa à realidade concreta das organizações. Não se trata de acumular informação, mas de construir repertório para decisões mais conscientes e responsáveis. Nesse contexto, desenvolvemos o Scaffold Play, uma solução B2C voltada ao letramento de líderes brasileiros. Iniciativas como essa ampliam o acesso ao conhecimento aplicado, por meio de conteúdos, reflexões e experiências de aprendizagem alinhadas aos dilemas reais da liderança.
Acredito que a inteligência artificial não vai substituir líderes.Mas vai expor, cada vez mais, quem sabe pensar, aprender e exercer julgamento crítico — em contraste com aqueles que apenas operam ferramentas.
No fim, talvez a pergunta mais relevante não seja como usar IA, mas algo mais profundo: estamos formando líderes à altura das decisões que esse novo cenário exige?