COLUNISTA

Discernimento bíblico na febre da inteligência artificial

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Vivemos dias de um frenesi que lembra as antigas corridas do ouro. Hoje, as picaretas são algoritmos, as minas são data centers e o "El Dorado" é a promessa de onipotência digital. A Inteligência Artificial tornou-se o novo bezerro de ouro diante do qual o mercado e a cultura se inclinam. À luz da sabedoria bíblica, reconhecemos um padrão antigo: a soberba humana que deseja "ser por si só", como em Babel (Gn 11.4) - mas torres levantadas sobre a areia da especulação não suportam o peso da realidade.

As Big Techs - Microsoft, Google, Alibaba, OpenAI - anunciam investimentos bilionários com uma retórica quase soteriológica. A IA é apresentada como quem oferece salvação: superar limites, multiplicar produtividade, resolver o que parecia impossível. Nesse entusiasmo, a advertência de João Calvino permanece atual: "o coração humano é uma fábrica de ídolos". Se antes o ser humano esculpía divindades em madeira e pedra, hoje a produção é em silício e código. A sociedade atual transferiu para a máquina expectativas que pertencem à Providência, como se o que só Deus pode sustentar pudesse ser carregado por servidores e chips.

Esse cenário nos conduz a Eclesiastes. O Pregador declara: "Tudo é vaidade" (Ec 1.2). A palavra hebraica é hebel: vapor, neblina, algo que parece sólido, mas escapa quando tentamos segurá-lo. Ações tem sido disparadas mais pelo "falar" do que pelo "fazer"; o hype virou combustível, enquanto muitos projetos, nos bastidores da realidade, não tem gerado retorno de fato. É a glorificação do vapor. O teólogo sistemático Herman Bavinck lembra que a cultura humana integra o mandato divino, mas, quando se desliga da glória de Deus, torna-se auto-deificação: promete revolução e entrega poeira; promete permanência e entrega obsolescência.

Há também uma contradição ética no coração dessa corrida. A IA tem se apresentado como o caminho de crescimento infinito, uma escatologia secular onde a tecnologia pode redimir o mundo. Contudo, a Escritura ensina que a Queda (Gn 3) afetou toda a Criação. Na realidade a infraestrutura que sustenta a IA consome energia, água e minerais raros em escala. O discurso é de libertação; o resultado pode ser exaustão. Assim, a ferramenta que promete eficiência pode acelerar crises ambientais e ampliar desigualdades. Aqui o princípio bíblico da mordomia é ferido. Deus colocou o homem no jardim para "cultivar e guardar" (Gn 2.15), não para explorar sem freios, perseguindo uma eficiência cega. O primeiro ministro holandês, Abraham Kuyper, insistia que cada esfera da vida está sob a soberania de Cristo. Quando a esfera tecnológica avança esmagando a esfera da criação natural, rompe-se a "Shalom", a ordem de paz ordenada por Deus.

Progresso que destrói o habitat que o Senhor criou não é progresso; é rebelião com roupas de inovação. Além da questão ambiental, surge o dilema social. A promessa é produtividade; o risco é desumanização. Sistemas que geram riqueza "digital" podem eliminar empregos "reais", concentrar poder e tornar o trabalho humano descartável. A pergunta é inevitável: o que sustenta uma sociedade quando a dignidade do trabalho é tratada como peça substituível? A Bíblia valoriza o trabalho como vocação e serviço. Substituir o homem pela máquina sem critérios éticos fere a Imago Dei. Por isso, uma bolha pode não estourar com estrondo, mas com silêncio: startups que somem, empregos que evaporam, promessas que se dissipam.

A imagem de Jesus em Mateus 7.26,27 nos ajuda a compreensão: a casa construída na areia parece firme até que as chuvas e os ventos cheguem. O hype levanta "castelos de aparências"; porem um futuro construído de eficiência algorítmica - sem prudência, justiça e compromisso com a verdade - é como erguer uma casa sobre areia movediça.

Portanto, a resposta cristã não é ludismo (medo irracional da tecnologia) nem tecnolatria (adoração da tecnologia). O que muitos chamam de "revolução" talvez seja melhor descrito como transição; e transições exigem discernimento, não euforia. A IA é uma ferramenta poderosa e pode servir ao mandato cultural, mas não é o Messias. A tecnologia é boa serva, péssima senhora. Pode custar mais do que parece se vendermos alma, criação e comunidade por uma produtividade que não sacia. Que aprendamos com Agostinho a ordenar nossos amores: usar as coisas e amar a Deus e às pessoas. A maré tecnológica sobe, bolhas podem inflar e murchar, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre - e permanece sólida a vida de quem nela confia.

IGREJA BATISTA DO ESTORIL
63 anos - Soli Deo Gloria

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