No início do ano litúrgico, a Igreja nos apresenta Jesus dando os primeiros passos de sua vida pública. No 4º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo São Mateus (Mt 5,1-12) nos coloca diante de um dos textos centrais da fé cristã: o anúncio das Bem-Aventuranças, proclamado por Jesus no chamado Sermão da Montanha. Trata-se daquilo que a Igreja reconhece como a verdadeira "plataforma" do Reino de Deus, o projeto de salvação e libertação oferecido à humanidade.
As Bem-Aventuranças não são apenas belas palavras ou ideais elevados; elas expressam uma proposta concreta de felicidade. Revelam um modo novo de viver, que contrasta com as lógicas do poder, do sucesso e da autossuficiência. O próprio Jesus é o modelo perfeito do bem-aventurado: pobre, manso, misericordioso, puro de coração, faminto e sedento de justiça. Nele, as Bem-Aventuranças deixam de ser teoria e se tornam vida vivida.
No texto de Mateus, é possível identificar três grupos de pessoas chamadas bem-aventuradas. Primeiro, aquelas que sofrem e necessitam de salvação: os pobres, os aflitos, os humildes e os injustiçados. Em seguida, os que se colocam a serviço deles, praticando a misericórdia, a paz e a pureza de coração. Por fim, os que, mesmo fazendo o bem, são perseguidos, caluniados e rejeitados por causa da justiça. Assim, as Bem-Aventuranças abrangem tanto os que padecem quanto os que se comprometem com o amor, mesmo pagando um alto preço por isso.
Para o início de um novo ano, essa mensagem se mostra especialmente oportuna. Jesus apresenta sua proposta de felicidade não como fuga das dificuldades, mas como força para enfrentar os desafios da vida à maneira dos santos e santas. Pastoralmente, a Igreja reafirma sua missão essencial: anunciar Jesus Cristo e seu projeto de vida plena para todos, especialmente num mundo marcado por crises, incertezas e sofrimentos.
Vivemos numa sociedade frequentemente descrita como "líquida", na qual faltam referências sólidas de verdade e de sentido. Valores morais, concepções de vida e até verdades fundamentais tendem a ser relativizados, ficando sujeitos às preferências individuais. Nesse contexto, o relativismo se apresenta como única certeza, enquanto a verdade objetiva, universal e duradoura parece não ter lugar. O ser humano passa a ocupar o centro absoluto, como se fosse a medida de todas as coisas.
Entretanto, essa visão conduz a uma falsa ideia de liberdade. Ao negar a existência do bem e do mal objetivos, o ser humano corre o risco de se desresponsabilizar de suas escolhas, deixando de reconhecer a própria culpa e o próprio pecado. Sem verdade, não há conversão; sem conversão, não há libertação interior.
Nesse cenário, a humildade torna-se uma virtude rara. Como lembra o filósofo Luiz Felipe Pondé, sem humildade não há verdadeiro conhecimento. Reconhecer as próprias limitações, fraquezas e pecados é um passo essencial, mas cada vez menos praticado. Fala-se facilmente de "pecado social" ou das falhas dos outros, mas poucos têm a coragem de admitir o próprio pecado pessoal diante de Deus e da comunidade.
Hoje, fala-se muito em valores, mas pouco em virtudes. Defender valores parece mais fácil do que viver virtudes, que exigem esforço, disciplina e luta interior. O Cristianismo, consciente da fragilidade humana e da realidade do pecado, afirma que ninguém se torna virtuoso apenas por esforço próprio. É a graça de Deus que transforma o coração, e o caminho para acolhê-la passa pela humildade e pelo reconhecimento sincero da própria condição.
As Bem-Aventuranças, portanto, permanecem como um convite atual e desafiador: abandonar a ilusão da autossuficiência e reencontrar, em Cristo, o verdadeiro caminho da felicidade.