COLUNISTA

O raio que passou pela boca

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
Na esquerda, normal e, à direita, afetada pelo raio com paralisia lingual unilateral por comprometer a nervo hipoglosso com perda do tônus muscular e atrofia
Na esquerda, normal e, à direita, afetada pelo raio com paralisia lingual unilateral por comprometer a nervo hipoglosso com perda do tônus muscular e atrofia

A chance de uma pessoa ser atingida por um raio é uma em um milhão, mas acontece com frequência, pois temos muitos raios todos os dias e cada vez mais gente exposta ao seus efeitos.

Um raio atingir a boca da pessoa é bem menos frequente, talvez porque suas sequelas são muito pouco relatadas na literatura médica-odontológica. Mesmo assim, devemos estar preparados para diagnosticar e saber se conduzir como profissionais de saúde nesta situação.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 20 a 30% das pessoas atingidas por um raio perdem a vida e 70% delas, ficam com sequelas graves por períodos prolongados ou permanentes, incluindo-se problemas psicológicos.

A eletricidade de um raio pode atingir a pessoa quando ela está apenas tocando um objeto, ou mesmo quando estiver perto de um objeto que tenha sido atingido, ou até mesmo através do solo no local. A vítima de um raio não retém carga elétrica no corpo e pode ser tocada e socorrida sem medo, visando uma reanimação cardiopulmonar imediata.

Quando o raio atinge a boca, o risco de morte instantânea ou sobrevida com lesões muito graves, aumenta muito mais do que se o raio atingir o corpo mais lateralmente. A parada cardiorespiratória é o que geralmente leva à morte, pois a descarga elétrica chega até 40 mil amperes.

Na região da boca e rosto, a língua parece ser o local mais afetado quando os pacientes sobrevivem, mas podem afetar a faringe, laringe e esôfago. Irão ocorrer espasmos musculares e pode afetar o sistema nervoso, inclusive com comprometimento do nervo hipoglosso e vago, os dois nervos que controlam a fala, ocorrendo a dislalia como se chama a dificuldade em falar.

Os tecidos moles da pele e boca podem se queimar, por onde a descarga elétrica atravessa no corpo. Até os dentes podem ficar doloridos e o paciente reclamar de gosto metálico na boca.

PACIENTE

Para sedimentar esta experiência de ser atingido por um raio na região da boca, vamos relatar o que aconteceu com uma paciente quando estava em sua casa na zona rural, e foi atingida por um raio e jogada a dois metros de distância, sofrendo pequenas escoriações e desmaio por alguns minutos. O choque pode arremessar longe a pessoa, podendo causar também lesões por causa do impacto, especialmente nos dentes promovendo lesões típicas do traumatismo dentário.

Logo após o ocorrido, ela percebeu uma faixa avermelhada na cabeça que foi ficando acastanhada na linha média da face, desviando-se para a região cervical em direção ao braço esquerdo, o que perdurou por algumas semanas. Na língua, logo em seguida, notou que ficou avermelhada com aumento de volume do lado esquerdo com discreta sintomatologia dolorosa.

Após a fase imediata, despareceu-se as faixas de queimação na pele e na mucosa bucal, mas permaneceu como sequela definitiva, a perda de movimentos no lado esquerdo da língua com uma acentuada perda do tônus muscular associada a uma atrofia lingual unilateral esquerda.

A paciente reclamava que a fala ficou alterada, assim como relata um discreto desconforto na deglutição. De fato, a paciente apresenta uma dificuldade na comunicação pela fala depois do acidente com o raio que lhe atingiu. Os sinais e sintomas descritos são compatíveis com lesão periférica ou central do nervo hipoglosso e, provavelmente, do nervo vago, que controlam o falar.

REFLEXÕES FINAIS

1.    Pacientes atingidos por raios devem ser avaliados por médicos para delinear os danos que possam ter ocorrido, inclusive no sistema nervoso central e periférico. No caso desta paciente, já havia passado três anos quando a família procurou uma assistência e avaliação médica-odontológica.

2.    Os raios são diários e qualquer concentração de pessoas requer cuidados estruturais do local onde ocorrem, incluindo equipes de pronto atendimento, como nos casos de acidentes com descargas elétricas naturais ou raios. A boca destes pacientes devem ser sempre examinadas.

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