Se o calor intenso já virou motivo de queixa em Bauru, agora ele também acende um sinal de alerta na saúde pública. A escalada das temperaturas, somada às chuvas frequentes, tem impulsionado o aumento de acidentes com animais peçonhentos. Estas condições favorecem a reprodução, ampliam a circulação desses animais em áreas urbanas e elevam a chance de contato com a população. O cenário ajuda a explicar o crescimento expressivo dos registros no município, especialmente envolvendo escorpiões.
Dados da Secretaria Estadual de Saúde mostram que os acidentes com escorpiões vêm crescendo de forma contínua desde o início do monitoramento, em 2007, e atingiram recorde histórico em 2025, com 538 notificações. No ano anterior, foram 429 casos. Em 2007, quando a série começou, o município registrava apenas 45 ocorrências. Atualmente, as picadas de escorpião lideram as notificações por animais peçonhentos em Bauru, com predominância de vítimas do sexo feminino, sobretudo entre 40 e 49 anos.
Especialistas associam o avanço dos casos às mudanças climáticas, ao desmatamento e ao acúmulo de lixo em áreas urbanas. Segundo o biólogo da Unesp em Bauru e especialista em animais peçonhentos Roberto Marono, o calor acelera o metabolismo desses animais, tornando-os mais ativos. "Entre a primavera e o verão, com o aumento das chuvas, a água invade redes de esgoto, onde muitos escorpiões se escondem. Eles acabam saindo desses locais e entrando nas residências", explica.
QUEIXAS
Em Bauru, a espécie mais comum é o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), altamente adaptado ao ambiente urbano e com grande capacidade de proliferação, já que se reproduz por partenogênese, ou seja, sem a necessidade de macho. Uma única fêmea pode gerar cerca de 50 filhotes ao ano. A presença frequente é relatada, por exemplo, por moradores do Parque Primavera, nas proximidades do Cemitério do Cristo Rei, que convivem com o problema há anos.
"Eles aparecem na garagem, nas paredes e dentro de casa. Temos crianças e o medo é constante", relata uma moradora, que prefere não se identificar. Segundo ela, apesar de sucessivos contatos com a Vigilância Sanitária, a situação persiste. A orientação oficial é evitar a dedetização, já que o produto pode fazer os escorpiões deixarem os esconderijos e se espalharem ainda mais.
Sobre os cemitérios municipais, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) informou que a última dedetização ocorreu em outubro de 2025 e que novas aplicações estão previstas, conforme cronograma contratual.
Marono ressalta que a prevenção passa, principalmente, pelo controle do ambiente. "É fundamental eliminar fontes de alimento, como baratas, e os locais que servem de abrigo. O acúmulo de lixo e entulho favorece muito a proliferação", afirma. Ele também alerta para o transporte de materiais de construção, um dos meios mais comuns de dispersão dos escorpiões entre bairros.
Registros com taturanas e abelhas também crescem

Além dos escorpiões, outros animais peçonhentos monitorados pelo Estado também apresentam aumento de registros. Os acidentes com lagartas (taturanas) dobraram recentemente, passando de três casos em 2024 para seis em 2025, a maioria envolvendo meninos entre cinco e nove anos. O crescimento é associado ao período reprodutivo de borboletas e mariposas, intensificado nos meses mais quentes e pela perda de habitat natural.
As picadas de abelhas também cresceram. Em 2025, foram 32 ocorrências, número próximo ao recorde de 2015, quando houve 33 casos, com predominância de vítimas do sexo masculino entre 30 e 39 anos. O desmatamento e a redução de áreas verdes fazem com que colmeias sejam instaladas em ambientes urbanos, aumentando o risco de ataques. Apesar disso, Marono destaca o papel essencial das abelhas no equilíbrio ambiental e na polinização.
Entre as aranhas de importância médica, estão a armadeira, mais comum em períodos quentes e conhecida pelo comportamento agressivo, e a aranha-marrom, cujo veneno tem ação necrótica e pode provocar lesões graves.
O que fazer em caso de acidente?
Em caso de acidente, a orientação é lavar o local com água e sabão, aplicar compressas frias e procurar atendimento médico imediato. Bauru dispõe de soros para a maioria dos acidentes envolvendo escorpiões, aranhas, lagartas e cobras, disponíveis nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
A população pode acionar a Polícia Ambiental pelos telefones (14) 3103-0150 ou (14) 3203-2700, ou o Corpo de Bombeiros, pelo 193, especialmente em situações envolvendo abelhas e serpentes. Especialistas reforçam que, em períodos de calor e chuva, a atenção deve ser redobrada: manter quintais limpos, vedar frestas e buracos em residências e evitar o acúmulo de materiais são medidas essenciais para reduzir os riscos.