OPINIÃO

É preciso dar nome aos bois

Por Marina Machado | A autora é colaboradora de Opinião
| Tempo de leitura: 2 min

Nas primeiras horas do dia 3 (três) de janeiro, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados por forças estadunidenses. O sequestro foi acompanhado por bombardeios voltados (segundo a nota emitida pelo governo venezuelano) para “localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira”.

A ditadura e autoritarismo de Maduro, além da problemática do narcotráfico no país, são a justificativa estadunidense para o ataque antidemocrático orquestrado pelo presidente Donald Trump e as organizações bélicas de sua nação.

Entretanto, o presidente em questão parece ter uma concepção equivocada do cargo que ocupa; ao assumir a presidência dos Estado Unidos, Donald Trump aparentemente confundiu o cargo executivo federal correspondente ao território estadunidense com uma espécie inexistente de cargo executivo global, no qual o mesmo teria o direito de não apenas intervir, mas de surrupiar a soberania nacional de governos externos.

Sob essa mesma esfera analítica, é indispensável que seja discutido o grande interesse econômico do governo dos Estados Unidos perante a reserva de petróleo presente na Venezuela.

Há anos, Trump já discorria sobre seu desejo de invadir a Venezuela, buscando tomar a maior reserva de petróleo do mundo (estimada em 303 bilhões de barris).

Os ataques ao território e povo venezuelano e o sequestro do presidente e primeira-dama foram seguidos pela notícia de que, supostamente, ambos serão julgados em território estadunidense, sob legislação estadunidense, em um tribunal de Nova Iorque, por “narcoterrorismo”.

Sim, indubitavelmente, os crimes de Maduro devem ser julgados e devidamente endereçados sob os alicerces da Justiça - a Justiça venezuelana.

Atribuir teor de “defesa democrática” a um ataque visivelmente antidemocrático, fantasiar de “proteção do povo venezuelano” um ato (que, se proveniente de qualquer outra nação, seria rotulado pelos Estados Unidos como “terrorista”) introdutório a uma agenda imperialista que claramente visa não apenas explorar os valiosos recursos petrolíferos de um povo desprezado por Donald Trump - como demonstrado por suas violentas políticas anti-imigração e seus discursos supremacistas-, como também atestar sua influência sobre a América Latina em uma tentativa desesperada de restabelecer a imagem de sua nação como dominante perante o caótico panorama doméstico de seu governo, e interferir no funcionamento de um país soberano já eram ações previsíveis quando advindas do presidente em pauta.

Entretanto, é preciso dar nome aos bois: o que está em cena é um atentado do governo estadunidense contra a soberania nacional venezuelana e deve ser condenado; nesse momento, assistimos a indícios de um processo que evidencia a crise do imperialismo estadunidense, no qual os imperialistas ameaçam não apenas uma nação, mas toda a América Latina, em uma medida exasperada que busca recuperar o apogeu desse império.

A retórica supremacista de Donald Trump e seus aliados foi normalizada perante o silêncio ensurdecedor não apenas das entidades internacionais, mas do próprio povo que, entre seus iguais, possui impostores e traidores que são coniventes com os planos dessa doutrina, completamente alheios ao fato imutável de que, para além de brasileiros, são latinos e, portanto, são irmãos em luta.

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