COLUNISTA

A espiritualidade que sustenta um novo ano

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Antes de nos lançarmos ao ritual previsível das resoluções de ano novo - antes mesmo de abrir um novo diário ou ajustar a dieta - é essencial encarar uma pergunta mais profunda: por que a sua vida merece ser vivida? Muitos fracassos não nascem da falta de esforço, mas da ausência de um propósito capaz de resistir às frustrações e ao inevitável cansaço do tempo. Metas frágeis não sustentam a perseverança; apenas um alvo transcendente é capaz de fazê-lo.

Para o cristão, esse eixo não nasce da autoafirmação, mas da oração de Paulo em 2 Tessalonicenses 1.11, quando ele suplica para que Deus nos torne dignos da vocação que recebemos. Portanto, o grande desafio para o próximo ano não é apenas aquilo que você pretende conquistar, mas quais evidências concretas a sua vida apresentará de que você pertence a Cristo e vive sob a força desse chamado. Viver de maneira digna dessa vocação nos retira do centro e nos ensina a descansar sob o cuidado do Senhor.

Quanto mais caminhamos com Deus, menos nos tornamos cheios de nós mesmos e mais impressionados ficamos com Jesus. Aos poucos, nossa vida deixa de apontar para o nosso valor e passa a refletir o valor dEle, porque tudo o que há de bom em nós é fruto da graça de Deus agindo. Quando vivemos com sinceridade, amor e paz, algo desperta no coração das pessoas: elas percebem que existe uma vida mais profunda, diferente daquela que o simples natural costuma oferecer. Na prática, essa dignidade aparece em uma fé que cresce e em um amor que se derrama no cuidado com o próximo. Paulo não elogiou os cristãos de Tessalônica por simplesmente permanecerem firmes, mas por crescerem mesmo em meio às dificuldades. Eles não apenas guardaram a fé; eles a fortaleceram quando foram pressionados. Isso nos ensina que decisões cristãs verdadeiras não servem apenas para conservar o que já temos, mas para avançar: crescer na fé, na paciência, na disciplina e na alegria. A verdadeira mudança não está apenas no que fazemos ou conquistamos, mas em quem nos tornamos diante de Deus.

É preciso reconhecer, com honestidade, que essa dignidade raramente nasce em terrenos confortáveis. Se a vida fosse apenas uma sequência de dias fáceis, não haveria como distinguir convicção de conveniência. Sob pressão, a fé não fica apenas "em pé", mas se torna visível. O sofrimento faz perguntas que o conforto nunca faz: ele expõe o superficial, desmonta a ilusão de controle e revela se nossa esperança é um enfeite religioso ou um chão real. O evangelho não reduz a vida a prazer e desempenho; ele afirma que até o vale pode se tornar oficina, onde o caráter é purificado e o ser humano é moldado, com firmeza e graça, à semelhança de Cristo.

A grande armadilha do início do ano é a promessa silenciosa de que conseguiremos melhorar sozinhos. É o ego tentando uma reforma moral "na marra", como se a vontade humana fosse uma fonte de energia ilimitada. Todavia, a Escritura é categórica ao dizer que é Deus quem nos torna dignos e o Seu poder quem realiza todo bom propósito. O cristianismo não começa com a ordem: "melhore" - mas com a realidade: "você precisa ser sustentado". Isso não anula a nossa disciplina, mas dá a ela um vigor que não se esgota no humor do dia. A mudança profunda acontece quando a vida deixa de girar em torno do "eu" e passa a se apoiar em alguém mais fiel e poderoso do que nossas oscilações.

Quando obstáculos surgirem em 2026, não os veja como interrupções, mas como ocasiões em que Deus revela que tipo de pessoa Ele está formando em você. O objetivo final não será apenas um ano bem-sucedido, mas uma vida vivida para a glória de Jesus, de modo que até a rotina se torne um testemunho silencioso de que existe uma beleza eterna em ação. Assim, o cristão no novo ano será um reflexo do amor de Cristo, tornando Deus crível para quem ainda duvida, elevando-se em um deslumbre arrebatador onde o ordinário é consumido pelo sagrado, e cada simples batida do nosso coração, torna-se um cântico de triunfo que ecoa a majestade infinita da presença do supremo Rei em nossas almas.

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