Quando se tira uma discreta lasquinha do esmalte, que muitas vezes nem o portador percebe, a tendência é do profissional e paciente não valorizarem muito, pois logo se uniformiza com desgastes e ou estratégicas reconstruções.
Nem se imagina o trabalho que dá para fazer uma lasca de esmalte experimental. É muito difícil a padronização da força necessária para que ela aconteça, pois não é uma simples pancadinha que vai lascar o esmalte.
As trincas de esmalte podem ou não incomodar o paciente, mas nos cabe falar sobre elas com o portador e deixá-lo consciente das causas e consequências, como a infiltração de pigmentos e outras substâncias ao longo do tempo. A boca talvez seja a parte mais instagramável de um corpo e as imagens aumentadas dos sorrisos não perdoam o menor sinal.
Há uma ideia muito popular de que as trincas acontecem por um choque térmico entre gelado e quente. Tal como tomar uma bebida supergelada logo depois de se ingerir um café quente. Tentem fazer isto, e irão se frustrar.
No calorão incrível minha mãe dizia, vai lá e pegue o gelo da forma para colocarmos na água e nos aliviarmos. Com a fôrma de alumínio com uma alavanca para soltar o gelo, jogávamos água da torneira e escutávamos o estralar das trincas nas pedras gélidas. Escuto-as até hoje. O choque térmico abria trincas e o gelo se soltava. É óbvio que a bebida gelada e o café quente não trincam o esmalte. Para acontecer isto, tem que ter uma pancada muito forte, extremamente forte.
Em suma, lascas e trincas do esmalte, só acontecem depois de um fortíssima concentração de força direcionada para aquela área. Lascas e trincas tem relação etiopatogênica direta com traumatismos dentários. Quedas, boladas, socos, painéis de carro, cabeçadas, cotoveladas, pedras, etc. Deve-se buscar a causa, mas nem sempre se consegue, pois os pacientes não relacionam a situação causadora com o efeito em forma de lasca e trinca. O bruxismo e apertamento dentário também tem relação causal direta com as trincas.
DEMAIS PROBLEMAS
Ambas as situações devem ser corrigidas e mitigadas terapeuticamente. Mas, isto é apenas uma parte dos problemas, pois o traumatismo tem outras consequências que irão aparecer no transcorrer do primeiro ano após a pancada tipo concussão, e são elas: metaplasia cálcica da polpa, necrose pulpar asséptica, reabsorção interna, reabsorção cervical externa, anquilose alveolodentária e reabsorção por substituição.
E o que fazer, se na hora o paciente procurar orientação? Façamos como tenha ocorrido agora:
Radiografia periapical perfeita do dente para diagnosticar o que possa ter ocorrido na raiz. Registrar no prontuário, inclusive a possível causa, e fotografe.
A cada 30 dias, por 3 meses, checar a vitalidade pulpar e se negativar, fazer a endodontia imediatamente.
A cada 3 meses, nova radiografia periapical e checar a cor do dente. Se estiver escurecendo pode ser necrose pulpar asséptica ou metaplasia cálcica da polpa. Fazer a endodontia imediatamente.
De 3 em 3 meses até completar 1 ano e poderão surgir reabsorção interna, reabsorção cervical externa, anquilose alveolodentária e reabsorção por substituição. Se não surgir nada neste período, você teve sorte. E se estas alterações acontecer depois deste tempo, deve ser por outro traumatismo mais recente.
REFLEXÃO FINAL
Traumatismo dentário faz parte do dia a dia e o bruxismo e apertamento também. A população e profissionais devem ser conscientizados e treinados para cada uma das situações de traumatismos, incluindo funcionários e professores das escolas e universidades, além de pais e alunos. Isto pode ser feito com o mínimo ou nenhum aumento de custos, só mobilizando pessoas. Que tal difundir esta necessidade, começando com este protocolo para lascas e trincas entre seus pacientes, parentes, amigos e filhos?