A solução para a oferta adequada de água potável em Bauru, com uso sustentável, envolve mais de uma ação de gestão. Esta é a essência do projeto Sacre, o maior projeto de pesquisa aplicada de uso resiliente de água de superfície e subterrânea em andamento no País, realizado em Bauru. O programa coordenado pelo professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Hirata, aposta em frentes integradas de investimentos, que inclui, em um eixo essencial, a formação da chamada cidade-esponja.
É o que apresentou o professor Hirata em audiência pública realizada no dia 9 de dezembro, na Câmara Municipal de Bauru, presidida pelo vereador Junior Rodrigues (PSD). Para o especialista em águas, o fim dos problemas com torneira seca na cidade não envolve uma única medida. O programa de investimentos em poços pulmão, como na região do Val de Palmas, é importante nesta fase. É preciso também recuperar o Rio Batalha, cumprir investimentos de curto, médio e longo prazos previstos no Plano Diretor de Águas (PDA) de 2015, que deve ser urgentemente atualizado, destaca.
Para Ricardo Hirata, a pesquisa pressupõe "soluções integradas para cidades resilientes". Por qualquer ângulo apresentado pelo estudo, a aposta em "cidade-esponja" implica em pontos como ampliar a reservação, formar bolsões de retenção natural de água (para represar água na superfície e reduzir o efeito sobre inundações urbanas), aumentar as áreas de vegetação e parques permeáveis, criar 'fazendas de poços', reduzir drasticamente as perdas por vazamentos na rédea, além de programar e realizar os investimentos em infraestrutura hídrica (adutoras, poços, controle de pressão de água na tubulação e interligações).
A questão é que várias dessas ações já estão em lei municipal, desde 2019, quando o atual Plano Diretor de Água (PDA) entregue em 2015 descreveu todos os problemas do atual sistema gerido pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) e listou, uma a uma, as ações resumidas acima.
"Nenhuma cidade terá uma solução única para fazer. São várias e integradas. Bauru tem basicamente três fontes de água para abastecer sua população urbana: a captação de água superficial do rio Batalha (25%); poços do Sistema Aquífero Guarani (SAG) (70-65%); e cerca de 800 poços privados que exploram água do Sistema Aquífero Bauru (SAB) (5-10%). Todas têm vantagens e limitações; muitas delas muito conhecidas, embora as razões e suas soluções, devidas à complexidade, requeiram soluções ou caras ou complexas".
ATIVIDADES
Por meio de modelos numéricos, o atual estágio do Sacre já verificou que Rio Batalha não tem água suficiente para todos os usuários (consumo residencial, comercial, agrícola etc.). "Este cenário tende a reduzir a oferta de água devido ao aumento da silvicultura, sobretudo de eucalipto, ou mesmo será impactado pelas mudanças climáticas. E veja que o eucalipto é uma planta de alto consumo de água, mas várias outras culturas agrícolas também o são", cita.
Além disso, o sistema de captação e tratamento (ETA) também se mostra ineficiente (antigo). "A solução passaria por proteger o Rio Batalha e evitar a sua erosão, por meio do controle do uso da terra e da mata ciliar e, também, a gestão dos diversos usos. Mas isso exige a restrição de algumas atividades, visando preservar o principal usuário das suas águas, que é a cidade de Bauru", elenca. Aqui vêm dois erros acumulados. O Batalha e seus afluentes estão sendo deteriorados e Bauru e as cidades vizinhas assistem ao processo.
SECANDO
A pesquisa também ratifica outras realidades conflitantes com a busca de solução. Bauru retira da Lagoa do Batalha (na divisa com Piratininga) acima da capacidade daquele ponto, o sistema do DAE desperdiça muito da água que produz (vazamentos) e o sistema de poços (40 unidades hoje operando) aponta rebaixamento anual. O Sistema Aquífero Guarani (SAG) apresenta, na região mais central urbana, perdas no nível de água de 1 a 2 metros/ano, devido ao intenso bombeamento e à forte interferência hidráulica entre poços, descreve o especialista.
Ou seja, além do DAE, há anos, retirar da única Lagoa de Captação acima da capacidade daquele ponto (vazão), as bombas dos poços funcionam 24h - mantendo mais caro e vulnerável o sistema de abastecimento (a conta de consumo de energia é R$ 40 milhões/ano). "A solução seria reduzir a extração de água nessa área central e construir mais poços na periferia da cidade, incluindo um campo de poços (fazendas de água). A queda do nível tem aumentado os custos de extração de água", cita Hirata.
Um modelo numérico está sendo construído no estudo como ferramenta fundamental para definir como gerenciar a extração do aquífero Guarani (águas mais profundas) e prolongar seu fornecimento.
POÇOS ARTESIANOS
Já o Sistema do Aquífero Bauru (SAB) possui mais de 800 poços privados, em torno de 63% sem outorga (sob fiscalização do Estado - SP Águas). São poços artesianos de águas rasas, de 30 a 40 metros em sua maioria. "O correto seria que os poços privados tivessem cimentação sanitária a 30 metros de profundidade, o que reduziria a sua vulnerabilidade. Hoje o que esses poços fazem é mesclar águas contaminadas de superfície com águas puras e limpas de profundidade, resultando em água apta ao consumo humano", avalia.
DEFICIÊNCIAS
Assim como está apontado no Plano Diretor de Águas de 2015 (PDA), a insuficiência do Batalha, a superexploração 24h dos poços profundos (Aquífero Guarani) e a perda de produção do sistema SAG se somam à necessidade de resolver a pouca eficiência da ETA (Estação de Tratamento do Ouro Verde), ao aumento dos reservatórios (físicos) e naturais (lagoas urbanas) e o igualmente urgente plano operacional de redução dos vazamentos (perdas).
"Cada um desses aspectos faz com que menos água chegue às casas. Ter um programa para localizar vazamentos e consertá-los é fundamental para a cidade. É gestão integrada. O PDA é um ótimo plano a ser revisado para isso. E cruzar o estudo com os modelos numéricos que desenvolvemos para assessorar a tomada de decisões. A cidade tem uma opção única que os planos tradicionais geralmente não têm, por falta do enfoque integrado", destaca o professor.
MELHOR SAÍDA
Então, após já alguns anos estudando Bauru, qual é a melhor solução ou as melhores saídas? "Minha opinião é que todas elas devam ser estudadas e analisadas em conjunto para entendermos qual apresenta a melhor relação custo-benefício. E a opção não deve se restringir ao econômico (o mais barato), mas incluir aspectos sociais e ecológicos, e, sobretudo, o tempo necessário à sua implementação, pois alguns exigem obras de maior tempo, busca por financiamento", opina Hirata.
O professor pondera que, das ações possíveis, a captação no Rio Tietê é a alternativa mais cara, mas pode oferecer uma solução que atenda toda a cidade, resolvendo, de uma só vez, o problema de água do Rio Batalha e dos poços do SAG. Ele ainda pondera que o estudo dessa opção deve levar em conta a redução de operação dos poços (SAG), visando menores custos.
Ou seja, a captação no Rio Tietê (apresentada pelo governo do Estado como investimento mais robusto via uma concessão) é algo que deve ser avaliado no todo (custos de adutora, licenciamento no percurso entre cidades, operação, investimento de instalação, e impactos). "Essa opção também exigirá uma ETA nova de maior capacidade e estações elevatórias e bombas para vencer a distância e a geografia no trajeto entre o Tietê e Bauru. As ETAS modernas dão conta disso", enfatiza o professor da USP.
Hirata menciona que o que é bem mais rápido e tem custos comparativamente menores é a construção de campos de poços (poços próximos que operam de forma integrada e coordenada). Uma "fazenda de água". O estudo do Sacre mostra que há mais áreas potenciais para o desenvolvimento de estudos de viabilidade.