A artista plástica Salomeh Ferrari, de 62 anos, sempre foi ativa ao longo da vida, e isso não mudou com a idade. Ela faz parte de um grupo crescente de pessoas acima de 60 anos que encontram na atividade física uma forma de cuidar do corpo e da saúde mental.
Um levantamento da Tecnofit, plataforma de gestão para negócios fitness, mostrou um crescimento de 57,31%, entre 2022 e 2023 de idosos se matriculando em espaços para atividades físicas.
Dados da TotalPass, empresa de benefícios corporativos de bem-estar, coletados entre julho de 2022 e julho de 2025, mostram que o engajamento de usuários acima dos 60 anos está concentrado principalmente em São Paulo (65%), Rio de Janeiro (16,7%) e Minas Gerais (4,7%). Entre as modalidades mais procuradas estão pilates, funcional, musculação, alongamento, dança, HIIT e boxe.
Em termos de gênero, em São Paulo há maior presença de mulheres acima dos 60 anos do que homens, enquanto em outros estados a distribuição é mais equilibrada. Também há uma parcela de usuários que não declara gênero.
Para Salomeh, o pilates veio com a ideia de ajudá-la a se recuperar de uma lesão de ombro, mas ela tomou gosto pela prática e pretende continuar. Mas o que ela gosta mesmo é de caminhada, que funciona como uma como uma terapia.
Antes ela fazia junto com sua amiga, que se mudou do Brasil. "Agora, eu caminho sozinha, mas é bom porque escuto podcasts. Vou ouvindo, aprendendo coisas novas... É quando eu mato todas as minhas curiosidades", conta.
PILATES

Aposentada Anaí Pelai, 70 anos, também é adepta do pilates e da caminhada (Foto: Divulgação)
A aposentada Anaí Pelai, 70 anos, também é adepta do pilates e da caminhada. Há 15 anos, se dedica à modalidade e incentiva outras pessoas a praticarem. "É um lugar mais reservado e me transmite segurança porque os instrutores são especializados e fisioterapeutas. Eles estão sempre ao meu lado corrigindo os exercícios", comenta.
Sua filha, Ariane Pe lai, 38, é dona do estúdio de pilates Espaço Ponto de Equilíbrio.
Anaí atribui sua boa saúde à prática regular. "Me sinto muito bem desde que comecei. Acordo sem dores, e isso muda todo o meu dia", afirma. Para ela, o pilates reúne o que precisava: força, alongamento e alívio de dores nas pernas. Em consultas médicas, sempre recebe a recomendação de continuar.
Sedentarismo ainda preocupa
Apesar do crescimento no número de idosos ativos, o sedentarismo ainda preocupa. Entre 2006 e 2023, dados do Vigitel mostram que mais da metade (53,9%) passa três horas ou mais por dia em frente a telas. Rondinei Lima alerta que o comportamento sedentário, definido como o tempo sentado ou deitado além do sono, é um vilão independente da prática de exercícios. Mesmo pessoas que cumprem as metas semanais podem ter risco cardiovascular elevado se passarem mais de oito horas sentadas. "O ideal é reduzir esse tempo para no máximo quatro horas diárias", afirma.
Para os especialistas, os benefícios da atividade física são multidimensionais. Além de combater o sedentarismo, favorecem a socialização -importante diante da redução dos círculos sociais na velhice-, previnem e tratam doenças crônicas como diabetes, câncer e problemas cardíacos, e fortalecem o sistema musculoesquelético. Também contribuem para a saúde mental, reduzindo sintomas depressivos e protegendo a cognição. Ao promover autonomia, mobilidade e independência, a prática ainda ajuda a diminuir consultas médicas e queixas de saúde. Entre os especialistas consultados, há consenso: a atividade física é um pilar central para um envelhecimento saudável.
150 a 300 minutos de atividade aeróbica

Segundo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), idosos devem realizar de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada a vigorosa por semana, além de ao menos dois dias de exercícios de força e equilíbrio. O gerontólogo Rondinei Silva Lima, lembra que a meta pode parecer distante para muitos. "Estudos mostram que 20 minutos de caminhada semanais já podem gerar benefícios cardiovasculares, cognitivos, melhorar a memória, a atenção e o humor", explica. A prática insuficiente de atividade física entre idosos caiu de 73,2% em 2013 para 63,6% em 2023, mas a inatividade total permanece alta, atingindo 32,2% em 2023.
O geriatra Eduardo Ferriolli, especialista em envelhecimento e sarcopenia, ressalta que uma das primeiras preocupações quando um idoso inicia exercícios é avaliar a necessidade de exames. Para atividades leves a moderadas, como caminhada e musculação, não é necessária avaliação cardiológica prévia, desde que não haja histórico de doenças cardiovasculares ou sintomas. Já para treinos intensos, como corrida ou musculação, ele recomenda avaliação cardiológica. Ferriolli destaca a importância de investigar osteoporose antes de exercícios de impacto, devido ao risco de fraturas, e de avaliar equilíbrio e risco de quedas.