Em tempos de turbulências jurídicas, políticas e sociais, vale a pena buscar a precisão dos conceitos, como Aristóteles fez ao definir suas categorias nos primórdios da filosofia. Em vez de usar palavras transmitidas de sentidos duvidosos, precisamos nos entusiasmar e explorar os significados por trás delas para que o diálogo seja claro e produtivo. Um exemplo disso é o termo "totalitarismo", muitas vezes confundido com despotismo, tirania ou ditadura. Embora todos estejam ligados ao autoritarismo e à violência, cada um tem suas particularidades distintas.
Uma Filósofa e o Totalitarismo
Hannah Arendt (1906-1975), uma das maiores pensadoras do século 20, dedicou-se à filosofia política com um rigor excepcional, concentrando-se no totalitarismo em sua obra-prima, Origens do Totalitarismo - Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo (Companhia das Letras). Nesse livro, ela explora as raízes e os efeitos desse público. Para Arendt, o totalitarismo não tem origem em impérios antigos, como o romano, nem em formas tradicionais de poder como tirania, despotismo ou ditadura. Em vez disso, ela afirma se tratar de algo novo, surgido no século 20 a partir de fatores como o antissemitismo, imperialismo e a crise das democracias após a 1ª Guerra. Ele se manifesta no comunismo stalinista e no nazismo que, apesar de terem ideologias opostas, aborda um traço central: impor uma única visão de mundo, eliminando a diversidade de ideias. Para isso, usam tecnologias, propagandas e ideologias religiosas como ferramentas para controlar as mentes, suprimir liberdades e restringir a expressão individual, enquanto reescrevem uma nova realidade. Esse modelo rompe com os padrões antigos de violência e serve como alerta sobre os perigos à liberdade em momentos de colapso social.
Diferenças entre os Conceitos
A tirania é um tipo de poder autoritário que ignora as leis. O tirano governa sem respeito por uma constituição ou norma jurídica, colocando-se acima da lei de forma ilegítima. Já o totalitarismo é diferente: exerce seu autoritarismo dentro do sistema legal, apoiando-se na lei e nas regras de uma constituição. Em sua obra, a filósofa cita o exemplo de um líder nazista que nunca violou diretamente as leis de seu país. Ele agiu dentro da "Constituição de Weimar", aproveitando suas brechas para legitimar suas ações. Isso é a diferença de uma ditadura, que opera além das leis nacionais, e do despotismo, marcado por uma violência arbitrária e opressiva, também alheia à constituição.
O que é Totalitarismo?
Numa sociedade plural, convivem diversas ideologias, visões políticas, sociais e religiosas. Há espaço para diferentes costumes, culturas e pensamentos, como fatias de um todo democrático. O totalitarismo, porém, surge quando todas essas partes são sacrificadas em nome de uma única visão. Ele exige que a realidade seja interpretada por um só ângulo, esmagando a diversidade. Uma parte domina e absorve todas as outras, fazendo-se o "todo" que sufoca as perspectivas semelhantes. Ao chegar ao poder, o totalitarismo vence a pluralidade, forçando todos a adotarem a mesma maneira de ver o mundo. É, portanto, uma completa incapacidade de conviver com o diferente, reduzindo tudo a uma homogeneidade que aniquila as diferenças.
Quando a Conversa Acaba
A lógica do totalitarismo é simples: Quem discorda é isolado, atacado, excluído, "cancelado", visto como uma ameaça à "unidade". Diferentemente do que ocorre na tirania ou no despotismo, o totalitarismo não se apresenta como inimigo da lei ou da pátria; pelo contrário, ele se vê como o guardião dessa unidade. Mas sua solução para as divergências do mundo é simplista e perigosa. O totalitarismo mata o diálogo, acaba com a conversa. Nesse mundo do ideal totalitário, não há espaço para discordância ou debate — a dialética desaparece. Mesmo sob a aparência da lei, silencia as vozes divergentes. O totalitarismo é a morte da expressão e do pensamento livre. Jesus Cristo, em seus ensinamentos e ações registradas nos Evangelhos, posicionou-se em uma oposição implícita a qualquer tipo de autoritarismo. Ele pregava a liberdade espiritual e a dignidade individual, valores que desafiam a essência de sistemas autoritários. Sua ênfase no amor ao próximo (Mateus 22.39), na misericórdia e na autonomia moral — como ao ensinar os discípulos a pensar e agir por si mesmos (Mateus 7.7-8) — contrasta com a nova lógica totalitária de controle mental e uniformidade. Jesus ofereceu uma visão que resiste à homogeneização e à coerção, defendendo um modelo de vida baseado na escolha pessoal. Em um mundo onde a conversa não pode acabar, a diversidade de ideias é o que nos mantém vivos e humanos - "Se o Filho vos libertar, vocês serão verdadeiramente livres" (João 8.36).
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