COLUNISTA

A Parábola do filho pródigo ou do pai amoroso

Por Dom Caetano Ferrari |
| Tempo de leitura: 5 min
Bispo Emérito de Bauru

No Evangelho da santa Missa deste quarto domingo da Quaresma São Lucas narra a Parábola do "Filho Pródigo", melhor seria ser chamada do "Pai Amoroso", contada por Jesus - Lc 15,1-3.11-32. Jesus a contou para publicanos e pecadores que vieram ouvi-Lo, também para fariseus e escribas ali presentes que, porém, murmuravam: "Esse homem recebe os pecadores e come com eles". A essas pessoas Jesus falou de um pai que tinha dois filhos e que era um grande fazendeiro, com muitos empregados. Esse homem era bom e justo. O filho mais moço desejou aventurar-se pela vida, na liberdade, levando a parte da herança que lhe cabia. Sabemos o que lhe aconteceu, e como, sentindo-se pecador, voltou arrependido para a casa do pai. O filho mais velho, observador e cumpridor da lei e da tradição, revoltou-se contra o pai porque perdoara o filho aventureiro que, além do mais, cometera grandes pecados torrando a grana com festas e vida depravada. É possível destacarmos três tipos de pessoas da Parábola de Jesus que eram religiosos, observantes uns mais outros menos dos mandamentos de Deus, e fazermos uma comparação com paradigmas consentâneos aos dias de hoje.

Esses três tipos são: Primeiro, os justos ou santos que são o fazendeiro e os empregados. O fazendeiro é ao memo tempo o bom pai que ama seus dois filhos e o bom patrão que trata com justiça os seus empregados; os quais, filhos e empregados vivem felizes, sem nada lhes faltar. Trabalhando contentes na fazenda. Segundo, os pecadores que são os publicanos cobradores de imposto e ouvintes de Jesus, e o filho mais moço, o esbanjador da herança com prostitutas e bacanais. Terceiro, os observantes que são os fariseus e os escribas, murmuradores contra Jesus, e o filho mais velho, revoltado contra o pai; aqueles e estes são cumpridores da lei.

Conforme crença generalizada, nos paradigmas reinantes hoje não existiriam mais pecadores. Alguém inclusive já escreveu que abaixo da linha do Equador não há mais pecado. Portanto, restariam somente duas categorias de gente: Justos e observantes. Pecadores não mais se teriam na face da terra. Dá para se perceber bem, hoje, que é raríssimo alguém admitir que cometesse algum erro, crime, pecado, e, caindo de joelhos, como fez o filho pródigo, dissesse: "Pai, pequei contra vós e contra Deus". Se alguém, objetivamente, errar ou pecar, e subjetivamente, não assumir a falha, negar ou tergiversar, racionalizar ou justificar, atribuindo a culpa a qualquer razão externa alheia à sua vontade ou conferindo a responsabilidade às normas que estariam caducas ou aos outros que não gostariam dele, que seriam invejosos, que disputariam com ele vantagens, ou até mesmo responsabilizando a vida que seria madrasta, enfim, à má sorte, estaria sendo normal. Modernamente atribuem-se os erros, crimes e pecados às pressões sociais da política, da economia e luta pela vida, e às condicionantes da psicologia e dos distúrbios mentais ou de outras doenças que tirariam qualquer responsabilidade pessoal. Pessoas que assim pensam nem se dão conta de que, então, não existiria mais liberdade neste mundo. E o que todo mundo mais deseja e defende é a liberdade. Que contradição: quanto ao erro e pecado ninguém se julga ter a liberdade para evitá-los, quanto ao prazer todos desejam a total liberdade para buscá-lo. Num caso não há a liberdade, noutro ela é um direito fundamental da pessoa humana; ai de quem ameaçá-la. O fato é que hoje, o novo paradigma, aceito sem nenhuma crítica por muita gente, parece, em suma, que erradas estão as leis de Deus com sua justiça e direito, as quais é que devem ser mudadas para se adequarem aos valores supremos da liberdade, felicidade e sucesso. Certamente, o filho pródigo moderno não estaria arrependido pelo pecado que fez, ter ofendido a seu pai e a Deus, mas frustrado porque o seu projeto de ser livre e feliz não dera certo. Não por sua culpa, é claro, mas por causa do outros que teriam se aproveitado dele, do seu dinheiro e prodigalidade, ou por causa da sociedade injusta que não o teria amparado na pobreza, ou por causa de Deus mesmo que não o socorrera no aperto, ou porque o mundo é que seria injusto. Para não morrer de fome, o filho pródigo moderno voltaria ao pai, sim, porque sabia que o pai é bom. No entanto, não se deixaria converter ou mudar, substancialmente, na sua compreensão da vida, da fé, da ética e moral. O filho pródigo moderno, obcecado pela ideia da liberdade, felicidade e sucesso, jamais se ajoelharia para pedir perdão ao pai e a Deus por algum pecado pessoal, porque não crê que exista o pecado nem que ele seja um pecador. O super-homem não admite que erra e peca nem aceita a sua insuficiência essencial. Essa é a idolatria do sujeito que se julga igual a Deus, que adora a si mesmo, um pecado contra o primeiro mandamento. A questão é: Como ter misericórdia com quem não é capaz de bater a mão no peito reconhecendo-se pecador e pedir perdão? No entanto, esse é o caminho, porque a misericórdia pressupõe a justiça e a justiça começa reconhecendo os direitos de Deus de estabelecer um código de conduta como Ele nos deu, os Dez mandamentos. "Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama" (Jo 14,21). "Não é quem diz Senhor, Senhor que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que cumpre a vontade de Deus" (Mt 7,21). Isso é obra que salva, porque fé sem obra é morta.

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