ALTA NOS ALIMENTOS

Apas: Fatores externos impactam avaliação negativa sobre preços

Por André Fleury Moraes | da Redação
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Edu Leporo Fotografia
À esquerda, Felipe Queiroz, economista-chefe da Apas; ao lado, Erlon Ortega, presidente da associação
À esquerda, Felipe Queiroz, economista-chefe da Apas; ao lado, Erlon Ortega, presidente da associação

A Associação Paulista de Supermercados (Apas) diz acompanhar com atenção a alta nos preços de alimentos, mas afirma que, no momento, a inflação no setor supermercadista está sob controle. "O Índice de Preços dos Supermercados (IPS), elaborado pela entidade em parceria com a Fipe, registrou alta de 0,75% em dezembro, com desaceleração em relação tanto ao mês anterior quanto ao mesmo período de 2023", afirma Erlon Ortega, presidente da Apas.

"Quando comparamos a inflação acumulada nos supermercados paulistas em 2024 com o índice de inflação oficial da economia, o IPCA, constatamos que preços nos supermercados ficaram 1,2 ponto percentual (p.p.) acima do índice oficial; variações de 6,02% e 4,83%, respectivamente", acrescenta.

Essa alta, pondera Ortega, decorreu sobretudo das alterações climáticas e da taxa de câmbio, como atestam os produtos que apresentaram as maiores altas no período, entre os quais o café.

Segundo ele, a expectativa para 2025 é de desaceleração nos preços dos alimentos nos supermercados paulistas, medida impulsionada pela boa safra 2024/2025. "Os primeiros resultados de 2025 já apontam nessa direção. Os preços nos supermercados paulistas estão desacelerando. Observamos esse movimento em nossas lojas", avalia.

Economista-chefe da associação, Felipe Queiroz vai na mesma direção. "A inflação tem subido de forma moderada. No agregado geral, a inflação foi em torno de 6% no último ano. Mas itens mais sensíveis tiveram alta expressiva, como o café e a carne bovina", afirma.

São justamente esses produtos mais sensíveis, diz Queiroz, que influenciam a percepção sobre uma alta generalizada. "Há outros produtos cujos preços desaceleram de modo considerável ou estão até em deflação, como acontece com o arroz e com o feijão", explica. "Alguns produtos que sofrem grande impacto de fatores climáticos e do câmbio geram uma percepção de que tudo está muito ruim", acrescenta.

Em 2022, por exemplo, a inflação acumulada do ano fechou em 16,5% - e a dos supermercados chegou a bater 20% em agosto de 2020 - influenciada pelo início da guerra da Ucrânia e também pela pandemia.

"Os produtos que tiveram alta no último ano tiveram influência de fatoares exógenos [externos], que fogem ao nosso controle. Não é que houve aumento de demanda de café ou de azeite. Houve uma queda de safra no Vietnã [no caso do café] e a cotação disparou. Com o azeite não é diferente: 2024 foi o ano mais quente da história e isso afetou o ciclo do Mediterrâneo, a principal região produtora [de azeite] do mundo", observa Felipe.

Segundo Felipe, a Apas também acompanha com atenção a escalada da taxa Selic - a taxa básica de juro no País. "Nós ouvimos sempre o mercado financeiro ouvindo que o problema é a inflação. Que temos pouca capacidade produtiva e que qualquer aumento de demanda gera pressão sobre preços. Mas como que o investidor - e aqui digo investidor mesmo - vai investir na economia com uma taxa de juros que é a maior do mundo?", indaga.

O problema em torno da alta sobre a Selic, observa Felipe, cria uma reação em cadeia na sociedade como um todo. "A taxa, como está, produz um trauma estrutural ao desenvolvimento do País. Não conseguiremos romper o ciclo da inflação sem uma Selic que favoreça o investimento", diz.

País tem problema de oferta e poder de compra, diz Cafeo 

O economista Reinaldo Cafeo vê no País dois gargalos que afetam a percepção da população sobre a economia e o próprio preço dos produtos. O primeiro envolve oferta; o segundo, poder de compra - que não cresce na mesma proporção da inflação.

No caso da oferta, pondera, o Brasil vive um dilema que se acentua desde a pandemia. "Muitas empresas quebraram neste período. Somente aquelas que trabalharam basicamente com produtos essenciais acabaram ficando no mercado. Então nós temos um programa de oferta. A população mundial cresce, a população brasileira ainda está crescendo, mas nós não temos oferta na mesma proporção", diz.

Na esteira disso, afirma Cafeo, vêm aportes sobre a economia com políticas de transferência de renda que eleva o consumo das famílias - gerando pressão, consequentemente, sobre índices inflacionários. "O número de dezembro aponta mais de 20 milhões de famílias recebendo em média 618 reais por mês a título de transferência de renda", afirma.

Além disso, há também o fator dólar. "Temos um governo que não faz a lição de casa no controle do gasto público e gera incerteza no mercado. Agentes econômicos protegem moeda estrangeira, o dólar sobe e contamina os preços indexados a ele. Agora tivemos aumento do combustível, vai aumentar o preço do petróleo, vai repassar [ao consumidor]", pontua.

"Quando você tem uma do dólar, esses produtos acompanham automaticamente. Um produtor pensa numa saca de sódio em dólar; não em reais", acrescenta.

Também entra neste cálculo a defasagem sobre o poder de compra. Segundo Cafeo, o fato de a reposição de renda ser em grande parte calculada no Índice Nacional do Preço do Consumidor (INPC) cria distorções sobre a capacidade aquisitiva.

"Quando você segmenta e pega o grupo alimentação e bebidas, que representa mais de 20% do índice, ela vai para 7 a 8% por esse mesmo critério de ponderação. Tivemos um resultado do salário mínimo com um ganho real, mas ele já foi comido pela alimentação. Lembrando que a maior parte da população brasileira gasta cerca de 80% para se manter, para comer, para beber", afirma.

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