OPINIÃO

Descanse em paz, David Lynch

Por Tatiana Bianconcini |
| Tempo de leitura: 2 min
Formou-se em Comunicação Social com Habilitação em Cinema na FAAP - Fundação A

Veludo Azul foi o primeiro filme que me fez entender a riqueza e o potencial da linguagem cinematográfica e, provavelmente, o "culpado" por me interessar em estudar Cinema (Afogando em Números e Asas do Desejo também tiveram sua parcela de "culpa", mas foi menor).

Veludo Azul deve ter ficado quase dois anos em cartaz no Belas Artes e naquela época a gente podia pagar uma sessão e ficar para ver de novo na próxima. E foi assim que eu perdi a conta de quantas vezes assisti a esse filme, chegando a ver três sessões seguidas uma vez.

Quanto mais vezes eu via, mais vezes eu queria ver. E, quando saiu de cartaz, nunca perdia uma oportunidade, em alguma mostra que o exibisse, de ver novamente. Depois, aluguei o VHS e fiz uma cópia para mim e também a vi repetidamente até gastar.

Cada vez mais a sequência inicial foi adquirindo importância para mim nessa maratona sem fim. Ela é quase um curta-metragem independente que resume o que o longa a seguir trará. Num minuto você está regando um jardim com cerquinha branca escalada por galas floridas e, no seguinte, um nó impede o fluxo de água da mangueira e você cai no chão à beira da morte. A câmera entra sob uma moita de flores coloridas e, sob ela, há bizarros besouros negros emitindo um zumbido macabro.

Veludo Azul é sobre a instabilidade da estabilidade, não sobre sua inexistência. A estabilidade, enquanto sinônimo de paz idílica, é algo que experimentaremos infinitas vezes ao longo da vida. Ela existe. Mas sua maior natureza é ser efêmera, embora infinita enquanto dure (parafraseando o poeta). E, quando esse fluxo se interrompe, é preciso investigar o que há no escuro, sob as moitas de flores iluminadas pelo Sol.

Não é possível ver os tordos voltarem se ignorarmos uma orelha humana devorada por formigas que encontrarmos no meio da relva. A investigação do "submundo" do nosso inconsciente nos leva a lugares sombrios e assustadores, mas onde também há beleza, uma beleza rara e que não se vê na superfície.

Como o brilho do robe de veludo azul de uma cantora cujo filho está sequestrado por um psicopata. É um brilho furta-cor como o da casca de alguns besouros negros que devoram as entranhas de flores coloridas, no escuro das moitas floridas.

Descanse em paz, David Lynch. Eu nunca me esquecerei de nada disso, pelo resto de minha vida. Há besouros sob as flores, mas os tordos sempre voltam a cantar se tivermos coragem para investigar o que há no submundo de nós mesmos.

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