Em tempo de aquecimento recorde do planeta, ficar de cabeça quente ou louco de calor se tornou mais do que apenas expressões. Uma série de estudos mostra que as altas temperaturas afetam o cérebro e podem causar distúrbios que vão de impulsividade, agressão e depressão a insônia e redução de capacidade cognitiva, com dificuldades de raciocínio, aprendizado e memória. O calor extremo derrete pensamentos, em sentido literal.
O calor é combustível para distúrbios mentais porque a exposição a altas temperaturas afeta a bioquímica cerebral. E, nos casos mais graves, pode levar a suicídio, surtos esquizofrênicos e episódios de violência. É um problema de saúde pública que cresce à medida que o mundo esquenta, num verão sem fim, alertam psiquiatras. A Organização Mundial de Saúde tem feito repetidos alertas sobre os perigos das ondas e extremos de calor para a saúde mental.
"O calor aumenta não apenas a morbidade, mas a mortalidade por doença mental. O calor que sofremos agora ameaça a saúde mental e precisamos de uma estratégia para enfrentá-lo", afirma Flávio Kapczinski, professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Um artigo científico questionando se há associação entre calor e problemas de saúde mental, liderado por Jingwen Liua, da Universidade de Adelaide (Austrália), analisou 53 ondas de calor, de 1990 a 2020.
A resposta é um retumbante sim. Dados de 1,7 milhão de mortes e 1,9 milhão de casos de doenças mentais mostraram que as ondas de calor causam aumento de 75,3% de casos de doenças mentais.
O estudo revelou que a elevação de 1ºC aumenta em 2,2% a mortalidade por doença mental. Mas até pequenos aumentos na temperatura podem ter impactos mensuráveis, especialmente em países tropicais.
Todos esses efeitos têm base física. O cérebro é muito sensível ao calor. Não só precisa manter a temperatura do corpo constante, por volta de 36,5C, não importando à do ambiente, quanto ele próprio é um consumidor e produtor de energia.
Um dos poucos estudos sobre saúde mental e calor no Brasil foi liderado por Julia Corvetto, da Universidade de Heidelberg (Alemanha), e publicado em 2023.
Ele avaliou o impacto do calor em 101.452 visitas à emergência em Curitiba por problemas de saúde mental, e revelou que os atendimentos por tentativa de suicídio aumentaram 85% em períodos quentes.
O risco de sofrer de depressão e ansiedade cresceu 18%. Mulheres de qualquer idade e adultos entre 18 e 64 anos foram mais vulneráveis.
"O frio não faz nada disso. Claro, quem já tem algum tipo de doença mental está mais exposto, mas ninguém é imune. O próprio calor, per si, pode levar à depressão, a crises de ansiedade", diz Kapczinski.
IMPACTO

O cérebro e o restante do sistema nervoso são resilientes ao frio, mas sofrem com o calor, explica o neurocientista Ricardo Reis, do Laboratório de Neuroquímica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ.
O impacto da quentura se manifesta em todas as escalas. Proteínas e enzimas têm a função prejudicada. Estruturas celulares, como mitocôndrias, são afetadas. Todos os neurônios são suscetíveis ao calor, mas os de Purkinje são particularmente sensíveis. São neurônios do cerebelo, grandes e ramificados, responsáveis por coordenar movimentos e regular o equilíbrio.
SUPEREXCITAÇÃO DO CÉREBRO
Sob altas temperaturas, as células cerebrais precisam se esforçar mais para metabolizar glicose, sua fonte primária de energia. O calor causa superexcitação do cérebro e pode prejudicar proteínas como a tau, associada ao mal de Alzheimer. Acima de 39ºC começa a haver condições para afetar o tecido cerebral.
Neurotransmissores ligados ao humor, como a serotonina e a dopamina, têm seus níveis alterados. E alguns dos medicamentos usados para tratar doenças mentais, por vezes, perdem o efeito ou acentuam o impacto do calor. É o caso de antipsicóticos, que afetam o sistema de termorregulação do corpo.
DISFUNÇÃO

Dificuldades de concentração, memória, aprendizado e tomada de decisões; Alterações de humor, irritabilidade e agressividade; Fadiga e sonolência; Aumento do risco de doenças neurodegenerativas devido à exposição crônica ao calor; Em casos extremos, convulsões e coma.
O cérebro faz tudo para manter sua temperatura estável e preservar as funções básicas da vida. E isso pode significar sacrificar a capacidade cognitiva.
Nadia Gaoua, estudiosa da London South Bank University, diz que o calor age como uma sobrecarga no cérebro.
Consequências fisiológicas
Aumento da temperatura e da pressão cerebral: o acúmulo de calor pode aumentar a pressão dentro do crânio, comprimindo o tecido cerebral e podendo levar a danos;
Diminuição do fluxo sanguíneo cerebral: os vasos sanguíneos do cérebro se contraem, reduzindo o fluxo de sangue e, consequentemente, a oxigenação e a nutrição dos neurônios; Dificuldade na remoção de substâncias tóxicas: Aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica permitindo a passagem de substâncias nocivas.
Risco maior para os mais vulneráveis
Embora qualquer pessoa possa ter problemas, aquelas que já sofrem de algum distúrbio são mais vulneráveis, enfatiza o professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Flávio Kapczinski.
"O calor aumenta a instabilidade emocional, compulsividade, agressão e pode agravar transtorno bipolar, depressão e esquizofrenia. Os países que mais sofrem são os que já eram quentes, mas ainda temos poucos estudos sobre isso".
PREVENÇÃO

Beba bastante água; Evite atividades físicas intensas em horários de maior calor; Use roupas leves e claras. Em dias de calor extremo, busque locais mais frescos.
Sabe-se que estudantes sob calor têm desempenho pior do que aqueles com acesso à refrigeração: estudo de 2016 provou que os alunos que dormiam em quartos sem ar se saíam pior em testes de Matemática. O Brasil tem uma cultura de calor, sinônimo de lazer.
Mas o calor benigno está no passado, o atual é fonte de sofrimento, frisa o psiquiatra Flávio Kapczinski, que coordena a Rede Nacional de Saúde Mental.