VIDA DIGITAL

Sem conexão por opção

Por Fernanda Alves |
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Reprodução

No meio de tantas curtidas, seguidores e comentários, ainda existe quem resista ao mundo virtual. No país onde nove em cada dez pessoas utilizam a internet todos os dias, a busca por uma vida sem exposição, o desinteresse em interações digitais e a vontade de aproveitar o tempo com atividades ao ar livre ou com estudos são alguns das motivações apresentadas por quem opta por permanecer desconectado e fora das redes sociais.

A decisão de deletar sua conta no Instagram há três meses marcou a escolha por "dar um tempo da vida virtual" da estudante de psicologia Maria Clara Silva Assunção, de 22 anos, moradora do Rio de Janeiro. Ela, que já tinha apagado antes suas contas no X (antigo Twitter) e Tik Tok, decidiu iniciar um detox temporário das redes sociais para ganhar mais tempo para atividades do dia a dia, como estudar francês e ir à praia. Considerou a experiência tão positiva que decidiu permanecer "fora do ar" por tempo indeterminado.

"Desde que saí das redes sociais, me sinto menos ansiosa, impotente e estressada. Também diminuí o consumo e não me comparo a outras pessoas com tanta frequência. Sinto que passei a aproveitar mais as companhia ao meu redor e não tenho planos de voltar às redes", conta Maria Clara.

Experiência transformadora

Graduanda em tecnologia em laticínios, Marina Toledo Melchiades, de 30 anos, está há quatro anos distante das redes sociais, um afastamento inciado devido à polarização política e às discussões virtuais que o tema gerava. Hoje, a moradora de Minas garante que a experiência foi transformadora, proporcionando mais tempo para exercícios físicos e inserindo um novo hábito na rotina: a leitura. Ela revela que a opção ainda gera curiosidade nas pessoas, que insistem pelo seu retorno.

"Quando conto que não tenho redes, a primeira pergunta é, basicamente, se foi por causa de algum término de relacionamento", conta a universitária. "Fico feliz de ter me afastado desse ambiente com tanta desinformação e que nos causa prejuízo à autoimagem, trazendo ansiedade, depressão, baixa autoestima etc."

A psicóloga Fabíola Luciano, especialista em terapia cognitiva comportamental, diz ter identificado aumento de pacientes que optam por deixar as redes, muitos deles jovens. Ela avalia como positiva a decisão, já que o tempo off-line faz a pessoa se conectar mais com a "vida real e com os desafios e vivências que ela traz".

"Os sentimentos que a rede social causam são difíceis de manejar. Incentivam o ranqueamento social, o sentimento de inferioridade, comparação constante, insuficiência, ansiedade e dificuldade de valorizar as próprias conquistas, entre outros", explica a profissional.

Uso dos meios digitais aumenta a cada ano

O abandono das redes sociais é uma decisão na contramão do comportamento social no país. A proporção de brasileiros, com 10 anos ou mais, que utilizaram a internet aumentou de 87,2% em 2022 para 88% em 2023. Eram 66,1% em 2016, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) Tecnologia da Informação e Comunicação, divulgada mês passado pelo IBGE.

Segundo o levantamento, 94,6% das pessoas disseram que se conectaram em 2023 para conversar por chamadas de voz ou vídeo. Trocar mensagens de texto, de voz ou imagens por diferentes aplicativos aparece em segundo lugar, com 91,1% das respostas. O uso das redes sociais vem em quarto, com 83,50%, atrás de assistir a vídeos, séries ou filmes em plataformas como YouTube e Netflix, com 87,6%.

O bancário Gil Vieira Di Coimbra Rocha, de 39 anos, de Goiânia, é a exceção na roda de amigos por ser o único que nunca teve redes sociais. Ele, que só aderiu ao WhatsApp por necessidade profissional, revela só ter olhado o perfil de conhecidos para matar a curiosidade de como as plataformas funcionam.

Dependência entre três a cada dez brasileiros

Segundo dados do Instituto Delete, sete em cada dez brasileiros são usuários excessivos de tecnologia e três em cada dez apresentam sintomas de dependência patológica e precisam de orientação profissional. Anna Lucia Spear King, doutora em saúde mental e professora da pós-graduação do Instituto de Psiquiatria da UFRJ na disciplina dependência digital, explica que cortar radicalmente o uso das redes pode não solucionar problemas ocasionados pelo uso excessivo. Segundo ela, o comportamento se torna lesivo quando traz prejuízos à vida pessoal, social, acadêmica ou profissional. Comportamentos como deixar de cumprir com obrigações, dificuldade no sono e até mesmo deixar de se alimentar para passar o tempo na internet são indicativos de distúrbios. "Sou contra esse detox temporário digital, é preciso aprender a fazer um uso consciente da tecnologia. Não pode ficar de cinco em cinco minutos vendo Tik Tok, Instagram e WhatsApp. Tem que ter tempo para refletir sobre a própria vida, suas angústias e inseguranças. Assim, ela evoluiu e aprende", destaca a professora.

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