Na escuridão, lanterna na mão, procurava aquela que seria o seu único e grande amor. Aquela metade, sem a qual inteiro não se é. Aquela, cuja beleza o inebriasse e como ele pensasse e das mesmas coisas gostasse, a ponto de que, em pensamento, se adivinhassem e se dissessem apenas o que doce seria ouvir.
Andou por entre vales e florestas, investigou terras e mares, mas ninguém encontrou. Pudera, impossível encontrar fora o que só dentro dele estava. Amava-se, perdidamente no espelho. Por isso, perdido estava e só sempre estivera.
Disse muito bem Vinicius que "a maior solidão é a do ser que não ama." E não ama quem apenas se ama. Quem não consegue sair de si, não sabe o outro enxergar. Quem apenas quer o objeto, a metade que lhe possa completar. Quem do outro quer se apossar. Narciso não ama por ter encontrado o seu verdadeiro amor, ele mesmo.
Eis o ledo engano: o outro não é metade nem laranja, menos ainda aquela horrorosa tampa da panela. É um ser inteiro e como tal deve ser amado e respeitado.
O outro não existe para ser pasto de quem mutilado está. Não se deve buscar nele o que não se tem, o que não se é. Resolver-se é dever de cada um.
O outro bengala não é.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.
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