"Namorar hoje é mais difícil do que nunca", teorizou a psicóloga norte-americana e expert em relacionamentos Logan Ury em seu livro "Como encontrar seu par", lançado no Brasil pela Editora Sextante. Uma das razões para a "sofrência" que significa engatar um romance está na dominação dos apps de paquera, cujo funcionamento, alertam psicólogos brasileiros, facilita uma profusão de desconfortos - eles dizem que dificuldade em lidar com o outro por meio de programas do tipo e pela tela do celular tornou-se assunto recorrente nos consultórios.
Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que já estão familiarizados com relatos de pessoas que desistiram não só dos aplicativos, mas do amor em si, por conta de alvos de interesse que ignoram as mensagens, ou pelas pessoas que somem abruptamente e sem explicação, após só dois encontros. O temido ghosting.
Há ainda outros fatores: figuras que se tornam insistentes após uma recusa, ou até imagens sensuais (não solicitadas) encaminhadas sem muita razão aparente. Tudo corrobora para que o aplicativo apareça nas sessões como fonte de bastante frustração.
"Todo mundo quer tudo muito rápido. Os aplicativos estão fazendo as pessoas se desiludirem muito com o amor, até porque estão usando o serviço com a percepção errada. É preciso entender melhor o app para não se frustrar. Do contrário, é possível que isso leve a um processo depressivo", afirma a psicóloga clínica Sandra Rodrigues, que atua em São Paulo.
Sandra explica que é fundamental notar que a ampla oferta de perfis é, na verdade, um aumento de possibilidades. Isso significa que a busca por um perfil específico, de alguém que dê liga com seus gostos e projetos, torna-se mais desafiadora. Para encontrar um parceiro que interesse, é preciso garimpar entre o mundaréu de pessoas.
Nessa procura há, inclusive, um recorte importante de gênero: nos consultórios, elas são quem mais falam sobre desilusões em não encontrar uma figura que pareça viável para construir um relacionamento.
"Vejo em pacientes que chegam aqui abalados por esse cenário uma desesperança, uma crença de que não vão encontrar alguém. Não posso determinar qual seria, afinal, o jeito correto de usar o app. Mas digo sempre que é preciso cuidar bastante da autoestima. E que a reciprocidade, fundamental para relacionamentos na vida real, deve ocorrer também no virtual."
Uso é saudável se expectativa for calibrada
Embora possam ser um caldeirão para experiências traumáticas e ansiedade, os aplicativos não são descartados totalmente dentro dos consultórios. Para muitos, trata-se de uma ferramenta útil. Basta que se compreenda seu uso, calibrando as expectativas e de olho na segurança. A psicanalista e professora da Casa do Saber, Carol Tilkian, sugere que a chave para sofrer menos é deixar de agir de forma "ansiosa e autocentrada" na paquera virtual.
"Às vezes, as pessoas reclamam que a conversa não engaja, mas não entendem que o outro tem uma agenda diferente da própria, que está ocupado. O aplicativo está gamificado, estão viciando mulheres e homens em gratificação instantânea por meio do like".
É urgente, ela diz, dar tempo e condições para conhecer o outro, sem esperar o imediatismo deflagrado pelas redes. E, embora pareça óbvio, verbalizar claramente o que se espera daquela interação é necessário (mas nem sempre feito).
"Há a expectativa que a pessoa preencha todas as expectativas. Por vezes, ao receber o convite para o sexo, pode ser possível dizer que não, que preferia sair para jantar primeiro. O movimento atual, porém, é automaticamente bloquear e considerar aquela pessoa (que convidou para transar) uma babaca. Simplesmente reclamar não vai resolver", conclui Carol.
Procurados, os apps dizem que adotam políticas para colaborar com o bem-estar dos usuários. O Bumble, por exemplo, afirma que sua missão é "criar um mundo onde todos os relacionamentos sejam saudáveis e equitativos".
O serviço também enumerou medidas de segurança que toma para evitar bullying, ofensas e agressões. O Grindr, mais utilizado por homens gays e pessoas trans, afirmou que tem uma "política de tolerância zero para discriminação, assédio e comportamento abusivo".
O app tem protocolos para detectar e remover contas que ignorem o código de conduta e um time de moderação na América Latina.
Pessoas viram 'fantasmas'
Carmita Abdo, psiquiatra e sexóloga da USP, diz que em alguns casos esses apps acabam aflorando o que há de pior em algumas pessoas. Antes, diz a especialista, o maior medo é que o outro inventasse o perfil. Agora os conflitos são mais complexos. "O que se comenta é que, de repente, aquele relacionamento acaba, desaparece. As pessoas se tornam fantasmas. Não faz contato, não responde." O psicólogo comportamental Janiel Felix também já lidou com casos delicados. Em um dos episódios, uma mulher recém-separada passou a trocar mensagens com um homem muito atencioso que parecia perfeito às suas demandas, mas que trazia muitos empecilhos para realizar o encontro real. "Ele falava tudo o que ela queria ouvir. E isso na vida real não existe. Vamos encontrar pessoas compatíveis e não iguais", pondera o especialista. Na comunidade LGBTQIA - que acaba contando com aplicativos voltados para orientações sexuais específicas - queixas também aparecem. É o que conta Lucas de Vito, psicólogo à frente da clínica "LGBT com local". "A questão é que os aplicativos se tornaram um ponto central das relações das pessoas LGBTQIA , escutamos muita, mas muita mesmo, reclamações ligadas a padrões de beleza."